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“As pessoas precisam conhecer as razões da fé”, fala-nos o novo presidente da CNBB em entrevista a Jornal.

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Dom Sérgio da Rocha preferiu “conversar” por e-mail. Justificou o pouco tempo na agenda, agora ainda mais atribulada como arcebispo de Brasília e também presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), recém-empossado. De 2001 a 2007, ele viveu no Ceará, onde foi bispo auxiliar da Arquidiocese de Fortaleza.

Dom Sérgio da Rocha

Aos 55 anos, presidirá a CNBB até 2019. Assumiu no lugar de dom Raymundo Damasceno, arcebispo de Aparecida (SP). Será dom Sérgio o principal condutor das diretrizes episcopais estabelecidas pelo Vaticano e também do posicionamento político da Igreja sobre o contexto nacional. Que hoje, convenhamos, é bastante intenso.

Em suas respostas, dom Sérgio escreve sobre a ideia de conduzir a CNBB por um caminho de atenção às temáticas sociais, “respeito à dignidade de cada pessoa”. Cita que “é preciso ouvir o clamor das ruas, a voz do povo que não aguenta mais tanta corrupção política e injustiças”. Como no debate de temas polêmicos instigado pelo papa Francisco, dom Sérgio diz que “é preciso incentivar a participação política dos cristãos”.

O POVO – Gostaria que o senhor falasse de sua história antes da vida religiosa. O que o filho de seu Rubens e dona Aparecida gostava de fazer ainda menino e adolescente? Ingressou cedo nos estudos religiosos?

Dom Sérgio da Rocha – Fui um menino normal que gostava de brincar e jogar, como tantos outros, especialmente no tempo em que vivi na zona rural, onde comecei os meus estudos. Mas também comecei a trabalhar bem cedo. Na fazenda, as crianças logo começavam a acompanhar os pais no trabalho. Na cidade, ainda adolescente, trabalhei como entregador de jornal e como auxiliar de escritório. Gostava muito de ir à escola, ao contrário de muitos. Ao chegar na cidade, ainda criança, logo me apresentei para ser coroinha, função que exerci durante vários anos. Por influência de minha família, especialmente de minha mãe, gostava muito de ir à Igreja.

OP – Sua família tem alguma ascendência italiana? Sua mãe tem o sobrenome Veronesi. O pai também tinha origem estrangeira? Sua família vivia de quê?

Dom Sérgio – Sou neto de italianos por parte de mãe. Meus avós maternos vieram da Itália. Meu pai sempre foi muito brasileiro, tanto no sobrenome de origem portuguesa, como no estilo de vida. Minha família vivia do trabalho da terra. Tinha vocação para viver e trabalhar no campo. Mas fomos obrigados a mudar para a cidade, durante a década de 60. A monocultura da cana de açúcar passou a dominar aquela região do interior paulista, impedindo os lavradores de trabalhar com outras culturas, forçando a ida para a cidade. Trabalhava-se na terra dos outros. Minha família sofreu as consequências do êxodo rural da época; sofremos a migração forçada, de que tantos são vítimas ainda hoje.

OP – O senhor nasceu em Dobrada, à época distrito de Matão. Sempre morou lá antes de ser ordenado padre?

Dom Sérgio – Na verdade, eu nunca vivi em Dobrada. Nasci numa fazenda chamada Santo Antonio que pertencia a Dobrada. Vivi na zona rural toda a minha infância, indo depois para a vizinha cidade de Matão, também no interior de São Paulo, onde permaneci até entrar para o seminário. Por isso, ainda hoje, tenho cabeça urbana e coração rural.

OP – Há mais religiosos ordenados em sua família?

Dom Sérgio – Sou o único da família que optou por ser padre, mas sempre contei com um grande apoio dos meus familiares.

OP – Nos tempos de seminário teve a dúvida presente, sobre se seguiria ou não a vida religiosa? Muitos dos sacerdotes com quem já conversei sempre admitem este momento. Como isso serviu de perseverança ou desestímulo para o senhor? Por exemplo, já pensou em se casar? Chegou a namorar?

Dom Sérgio – Entrei para o seminário com 18 anos, depois de concluir o Ensino Médio, idade que na época não era comum, uma vez que a maioria entrava ainda adolescente. Não excluía a ideia de casar, mas logo optei por entrar no seminário, aguardando a conclusão do Ensino Médio (Colegial), enquanto trabalhava para ajudar minha família. Por isso, não achava certo namorar. Fui para o seminário com a decisão firme de seguir até a ordenação. Tive dúvidas, se era melhor ser padre diocesano ou religioso. Inicialmente, queria muito ser franciscano, mas acabei entrando para o Seminário Diocesano de São Carlos, mais próximo da cidade onde eu residia. Durante o período de formação, há momentos de sérios questionamentos sobre o caminho vocacional, mas Deus me poupou de maiores crises. Fui um seminarista e um padre feliz.

OP – O senhor sente falta de ter filhos?

Dom Sérgio – O bispo, assim como, o padre, exerce a paternidade espiritual; é verdadeiro “padre” (pai). Admiro as pessoas casadas, rodeadas de filhos, mas sou feliz por viver nesta grande família, que é a Igreja – comunidade, com tantos filhos e irmãos.

OP – O senhor planejou chegar ao posto de bispo? Espera um dia ser cardeal?

Dom Sérgio – Bispo não é escolha pessoal. É missão que se recebe da Igreja. Escolhi ser padre. As funções que tenho exercido têm sido por bondade de Deus e da Igreja. Nunca busquei ser bispo, nem espero por cardinalato. O carreirismo só faz mal. Não são títulos que fazem as pessoas felizes, mas o modo como se vive a própria vocação. Quero continuar a ser apenas um “servidor” de Cristo e do Povo de Deus.

OP – Como foi sua passagem por Fortaleza, como bispo auxiliar? Havia quais demandas mais presentes quando o senhor esteve aqui?

Dom Sérgio – Fui muito feliz como bispo auxiliar de Fortaleza (2001-2007). Foi minha primeira escola de vida episcopal. Aprendi muito com os bispos, padres e o povo querido de Fortaleza. Recebi o título de cidadão fortalezense, que muito me honra. Eu me sinto parte dessa grande família, pois eu saí de Fortaleza, mas Fortaleza e o Ceará continuam no meu coração. Saudade e gratidão é o que sinto. Eu gostava muito de visitar as comunidades do interior da Arquidiocese de Fortaleza, assim como das periferias, pois nelas encontrava sempre muita acolhida carinhosa e testemunho animado de fé.

OP – Como arcebispo de Brasília, o que o senhor diz para políticos citados em acusações de desvio de dinheiro público?

Dom Sérgio – Tenho insistido, sempre que tenho oportunidade, na ética na política e na responsabilidade dos próprios políticos para recuperar a credibilidade perdida. Em vários ocasiões, especialmente em celebrações na Catedral de Brasília e em órgãos públicos tenho denunciado a corrupção política, embora procurando respeitar as autoridades constituídas.

OP – O que o senhor estabeleceu como objetivo, projetos e linha de atuação para o período em que estará como presidente da CNBB?

Dom Sérgio – A presidência da CNBB tem a missão de cumprir e ajudar a cumprir as diretrizes e decisões das Assembleias dos Bispos e dos Conselhos da Conferência Episcopal. Não inventamos um programa de governo. Recebemos do episcopado brasileiro as diretrizes que vamos por em prática. Quero muito que a presidência da CNBB esteja sempre à escuta do episcopado, atenta aos clamores do povo brasileiro, sempre unida ao papa Francisco.

OP – Que temáticas sociais o senhor pretende discutir publicamente à frente da CNBB?

Dom Sérgio – É preciso atenção constante aos temas mais importantes em cada momento histórico. Continuar a por em pauta os assuntos que já têm sido objeto de pronunciamentos da CNBB, nos últimos anos. No momento, destacam-se a Reforma Política, a redução da maioridade penal, o Estatuto do Desarmamento, a demarcação de terras indígenas, a corrupção, além de temas de validade permanente, como a defesa da vida, a saúde e a educação. Esta temática está mencionada na “Nota sobre o Momento Nacional”, publicada no final da última Assembleia Geral (realizada de 15 a 24 de abril). Infelizmente, há desinteresse por temas sociais, o que dificulta a participação do povo nos rumos do País. A Igreja precisa incentivar mais a participação política dos cristãos, o exercício consciente da cidadania.

OP – Logo na sequência à sua posse na CNBB, o senhor precisou negar que a nova diretoria da entidade terá postura político-partidária na discussão da reforma política. O senhor acha que a CNBB deve evitar manifestações públicas sobre fatos do cotidiano nacional?

Dom Sérgio – O esclarecimento dado por mim se deve a uma pergunta de um jornalista. Na questão da Reforma Política, não há mudança de posicionamento da CNBB, pois continuamos a não ter postura político-partidária. Infelizmente, há sempre o risco da CNBB não ser bem compreendida quando trata de assuntos de cunho político. A Política vai além dos partidos, embora eles sejam importantes. A Política não pode ser aprisionada pelos partidos. Deve ser objeto de interesse público. A CNBB continuará a se pronunciar sobre questões sociais em função de valores éticos, de exigências do Evangelho, procurando observar a Doutrina Social da Igreja. Agradar ao mercado ou atender interesses políticos partidários não é missão da CNBB.

OP – Como o senhor avalia o governo Dilma?

Dom Sérgio – Neste aspecto, sigo a posição da CNBB, que não tem emitido avaliação global de governos, seja federal, estadual ou municipal. Nas reuniões e assembleias, temos sempre um momento de “análise de conjuntura”, de modo mais objetivo possível, com dados a respeito da realidade social brasileira e mundial. Por causa da sua missão profética, a Igreja se pronuncia a respeito de problemas específicos, independente de quem está no governo, com autonomia.

OP – A CNBB se posicionou em nota, no dia de sua posse, condenando o acirramento de ânimos e o risco à democracia brasileira. O que o senhor acha da proposição de um novo impeachment no Brasil?

Dom Sérgio – Temos insistido no respeito por quem é legitimamente eleito, segundo as regras democráticas em vigor e, ao mesmo tempo, no direito do povo manifestar-se publicamente sobre questões políticas, desde que pacificamente. As discussões e propostas políticas devem se pautar pelo respeito à ordem democrática, à Constituição brasileira. Em momentos de crise, não pode faltar diálogo e respeito. Jamais apelar para a violência. É preciso investir muito mais no diálogo do governo com a sociedade, mas também é necessário o diálogo aberto, franco e respeitoso, entre os três poderes da República. E acima de tudo, ouvir o clamor das ruas, a voz do povo que não aguenta mais tanta corrupção política e injustiças.

OP – Sabemos que há divisões políticas ou de atuação dentro da Igreja Católica no Brasil. O senhor se considera seguidor de qual corrente?

Dom Sérgio – A minha postura tem sido a do diálogo com todos os bispos. A atual realidade eclesial não permite uma classificação dos bispos, como se fazia em outros tempos. Não vivemos momento de conflitos ideológicos. A Assembleia eletiva, com a aprovação unânime das Diretrizes pastorais, mostrou que há muita unidade entre os bispos. Porém, unidade não significa uniformidade. Dependendo do assunto, há diferentes pontos de vista, mas sempre com muito respeito.

OP – A postura adotada pelo papa Francisco, de não se negar a abordar temas polêmicos em suas declarações públicas, é boa para a Igreja Católica? O senhor a defende?

Dom Sérgio – O papa Francisco tem conquistado a todos com o seu jeito simples, sincero e espontâneo de tratar temas complexos. Isso tem sido muito bom para a Igreja Católica, pois as pessoas necessitam conhecer as razões da fé, através do diálogo marcado pela escuta e pela misericórdia. Imitá-lo não é fácil, mas estamos unidos a ele com admiração e muita gratidão.

OP – Os padres, bispos e cardeais no Brasil já estão cientes e praticantes dessa linha adotada pelo papa Francisco? Certamente são bastante diferentes das manifestações dos papas anteriores mais recentes, João Paulo II e Bento XVI.

Dom Sérgio – Enquanto sucessores de Pedro, os papas cumprem a mesma missão, mas enquanto pessoas humanas, cada um deles tem, obviamente, o seu modo de ser. Não há contraposição entre os papas citados. Não tem havido doutrinas opostas, mas posturas pastorais em que cada um ressalta, pelo seu modo de ser e agir, aspectos já presentes no Evangelho ou no ensinamento da Igreja, como o amor, a misericórdia e a verdade. Seja qual for o Papa, estamos unidos a ele.

OP – Sei que o senhor já deu declarações a respeito, mas gostaria que pontuasse sua posição sobre o aborto, o casamento gay e a adoção de crianças por casais homoafetivos. E como avalia o debate sobre a redução da maioridade penal?

Dom Sérgio – A minha posição frente a esses temas é a mesma da Igreja. O papa Francisco não tem feito mudança propriamente doutrinal. Ele tem sim vivido a doutrina de validade permanente com uma postura pastoral marcada pela misericórdia, pelo respeito à dignidade de cada pessoa, pelo diálogo e pela acolhida. Quanto à redução da maioridade penal, repito aquilo que se encontra na “Nota da CNBB sobre o momento nacional”: é um “equívoco”, não é solução para a violência. É preciso pôr em prática o Estatuto da Criança e do Adolescente, que já prevê medidas socioeducativas; investir pra valer em educação e em políticas públicas para a juventude.

OP – Há momentos em que um papa ou um presidente da CNBB precisem frear um discurso ou intensificá-lo para que a Igreja se faça entender e evite tormentas maiores?O momento atual, por exemplo, exige essas posições mais firmes do papa ou da CNBB ou em que medida isso pode atrapalhar o debate?

Dom Sérgio – A atitude a ser sempre cultivada é a de abertura ao diálogo, com a disposição de sempre escutar e a receber ajuda, de falar e a oferecer ajuda. Nossa posição quer ser de conciliação, respeito e paz, na Igreja e na sociedade. Mas não podemos renunciar à missão profética, que exige coragem, firmeza e fidelidade à verdade. O papa e a CNBB têm contribuído para o debate sobre tantas questões difíceis no âmbito eclesial e social, mostrando que vale a pena dialogar, refletir juntos. Para isso, muito já tem sido feito, mas queremos fazer mais ainda. Não se pode ter medo da verdade.

OP – O senhor é participante das redes sociais? Tem Facebook ou Instagram? É contra ou a favor que os religiosos utilizem?

Dom Sérgio – Não participo de redes sociais por absoluta falta de tempo. Acho importante o uso destes meios, especialmente no âmbito da evangelização. Contudo, seja da parte de padres ou de outras pessoas, é preciso discernimento e prudência, especialmente, não perder a identidade cristã, nem passar a viver num ambiente virtual.

OP – Como a CNBB pensa em fortalecer a presença da Igreja na sociedade, dentro do que está proposto na campanha da fraternidade deste ano?

Dom Sérgio – É preciso valorizar cada vez mais as pastorais sociais e estabelecer parcerias com a sociedade civil e órgãos públicos. A Igreja não tem a pretensão de explicar, nem de resolver sozinha, os problemas sociais; quer contribuir para superar as desigualdades sociais. Necessita de ajuda. A tarefa de construir a justiça e a paz é coletiva. Sem os cristãos leigos, isso não é possível. Além de valorizar o laicato, é preciso, de fato, dar prioridade para os pobres. Evangelizar os pobres é missão de Cristo e da Igreja.

Fonte: O Povo

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