Conheça a história por trás da imagem que viralizou

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Uma foto também é alguém. 

Provavelmente durante essa semana você deve ter visto essa imagem circulando nos grupos de WhatsApp, redes sociais, páginas que você curte ou até mesmo em algum site.

Realmente é uma imagem muito tocante. Uma criança que sorri entre lágrimas, enquanto segura um pão com suas duas mãozinhas. Se a foto, de algum modo não for o suficientemente sugestiva, a legenda que acompanha a grande maioria das postagens é: “A criança chorou ao receber este pão e esta foi a sua primeira refeição no dia”.

Maria Clara Bianchetti, voluntária na Missão, e autora da foto fez o seguinte relato sobre a cena: “Ontem, por volta das 17h30, este pão foi dado por mim a esta criança e ela chorou quando deu a primeira mordida. Meu coração muito mais. Do povo venezuelano, tudo lhes foi tirado. A dor física é dolorosa, mas a dor da alma nos machuca muito e dói, profundamente, muito mais!”

Você já tentou imaginar qual a história por trás desta foto?

O cenário atual do nosso país vizinho, a Venezuela, está cada vez mais em situação de precariedade, o que motiva muitos venezuelanos a saírem de lá e se refugiarem em países vizinhos.

Segundo dados recentes da Acnur (Agência da ONU para Refugiados)¹ atualmente existem 3,4 milhões de refugiados venezuelanos no mundo, e destes, 96 mil estão em solo brasileiro.

A Aliança de Misericórdia, Instituição Social e Religiosa da Igreja Católica reconhecida entre as 100 melhores ONGs do Brasil, está na região da fronteira com a Venezuela desde a última sexta-feira (22/02), quando iniciou a sua Missão Duc In Altum.

O objetivo inicial era chegar de ônibus até a Venezuela, onde a Aliança mantém uma casa de missão permanente desde 2013.

As evangelizações aconteceriam em Ciudad Bolívar, porém enquanto ainda estavam em viagem, o Presidente Nicolás Maduro decretou o fechamento de todas as fronteiras, restringindo tanto entradas quanto as saídas do país.

A Missão humanitária e evangelizadora, que inicialmente seria realizada naquele país, viu-se obrigada a traçar outra rota, e foi direcionada para a cidade de Boa Vista, capital de Roraima.

Ao chegar no local, os missionários se depararam com uma situação surpreendente! Milhares de refugiados venezuelanos, em estado de extrema necessidade. O número de pessoas era alarmante, sobretudo a grande quantidade de crianças.

Ir ao encontro de quem sofre

As necessidades são muitas, mas a fome é a que mais se sobressai. A fome dói, mas sobretudo grita aos olhos de quem sente e vê!

Muitas pessoas entendem por evangelização ir a algum lugar e falar de Deus ou sobre a Bíblia, porém esse verbo terminado em ação vai muito além disso e implica realmente em agir.

Se fazer presente em uma situação tão caótica e conflituosa por si só já é um grande ato, e para Aliança o mais importante é esta presença! É estar junto, para sentar e ouvir, compartilhar não somente as tristezas, mas levar esperança para aqueles que muitas vezes nem essa tem mais.

Quando vemos a imagem da criança que chora de alegria ao comer um simples pão, diversas coisas podem nos vir a cabeça, como com o que temos gastado nosso dinheiro, nossa energia, nosso tempo

Como algo tão simples para nós, como comer um alimento quando estamos com fome, ou até mesmo quando não estamos, pode ser tão significativo para alguém?

É que a fome dói, a fome rouba não só o sorriso, mas a dignidade e a esperança.

E o que sorriso dessa criança vem nos dizer? Que a esperança não morre e que ainda é possível encontrar o bem, mesmo em meio ao caos.

Mas enfim, quem é esta criança?

Nelcimar (a menina da foto), de 4 anos, e sua irmã mais nova, Samanta, assim como tantas outras crianças e adultos, vivem atualmente em um campo de refugiados próximo à rodoviária de Boa Vista. Seus pais, Nelson Fernandez, 41 anos, Karianny Delgado Nazaret, 22 anos, fugiram da miséria, da situação de precariedade que o país se encontra em busca de um futuro melhor. “Ao todo levamos 10 dias para chegar aqui, vindo da Venezuela para o Brasil e destes ficamos 5 dias em Pacaraima/RR na Polícia Federal processando a documentação. Para chegar em Boa Vista foi uma viagem de 4 dias”. Supomos que fizeram todo o percurso a pé, pois da fronteira até Boa Vista a viagem de carro dura aproximadamente três horas.

Quando perguntados sobre o que tiveram que deixar para traz é perceptível pela voz que muitas lembranças lhes vem à mente. Nelson compartilhou conosco que a situação não foi fácil: “Deixamos nossas famílias, nossos amigos, deixamos tudo para buscar um futuro melhor para nossas filhas. Tudo o que temos vivido deste governo até hoje nos deixou sem nada, sem comida, sem saúde, sem medicação. Neste momento na Venezuela não há nada. É lamentável o que estamos vivendo agora”.

Já para Karianny o sentimento de saudade e a incerteza sobre o bem estar dos seus familiares também aperta: “é fácil para mim, todos os dias eu choro, eu preciso da minha mãedos meus irmãos, da minha família. Eu não sei como eles estão, pois não consegui me comunicar com eles. Mas não consigo decidir entre minha família e minhas filhas. Primeiro minhas filhas! Seu estou na Venezuela e elas ficarem doentes, não há medicamentos ou comida. Não podemos estar na Venezuela”.

Cheios de incertezas, mas com a garra e a coragem de escrever uma nova história, eles também cruzaram a fronteira e vieram para o Brasil.

“Como gostaria de ainda estar lá, mas ficar seria egoísmo, não tinha como ficar e deixar minhas filhas passarem fome. Nãé fácil deixar a sua família da noite para o dia, como eu gostaria que também estivessem aqui. Não estamos muito bem, não dormimos vendo as meninas com fome. Estamos dormindo na rua, mas eu prefiro estar aqui do que na Venezuela, pois nãé fácil ter uma casa e não ter o que comer. As crianças adoecem e muitas delas morrem porque não têm recursos médicos!”, ressaltou Karianny.

Há por aí quem diga que a situação da Venezuela é apenas uma invenção midiática, ou ainda que as histórias estão sendo distorcidas e que os venezuelanos são antipatrióticos, mas não é bem assim. Imagina ter que deixar toda a sua vida para trás. Para Nelson esse é o sentimento: “Me deixa muito triste deixar meu país, pois eu o amo muito. Mas dou mil bênçãos ao Brasil por nos receber, é um país bonito e nobre. Chegamos com o desejo de trabalhar, aqui é possível ter uma oportunidade para o trabalho e de saúde. Aqui duas vezes fiquei doente e também uma das meninas. Lá na Venezuela você pode ter todo o dinheiro do mundo, mas seu filho morre, porque não há nada”.

A Aliança tem realizado diversos trabalhos junto aos refugiados, e a família de Nelson foi uma delas. Para eles, essa está sendo uma experiência inesquecível: “Chegamos do nosso país sem conhecer ninguém. Nós conhecemos vocês como se vocês fossem parte da nossa família. Sem nos conhecer, eles nos deram ajuda. É uma experiência que deve ser vivida. É muito bonita. Pessoas como vocês não estão em todos os lugares, são uma bênção de Deus”, agradeceu Nelson.

Karianny finaliza a entrevista com uma mensagem de paz: “Não perca a esperança, esperanças são as últimas perdidas. Algum dia a Venezuela vai melhorar e poderemos voltar para a Venezuela. Lá todos nós temos casa e família”.

Estenda as mãos para a Venezuela!

Como diria a canção de Pe. Zezinho², e o que em tantos momentos antes das refeições pronunciamos aqui na Aliança: “Senhor, dai pão a quem tem fome;
e fome de justiça a quem tem pão”, não podemos ser indiferentes à dor e ao sofrimento do outro. Que façamos o nosso possível para um mundo melhor, e para que crianças como a Nelcimar tenham o que comer!

Via Aliança de Misericórdia 

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