A experiência do amor de Deus

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amor de Deus

Muitas imagens são usadas para expressar o amor de Deus por nós, mas nada se compara à imagem do amor de uma mãe por seu filho. Afinal, o que nesta terra pode ser comparado ao amor de mãe? Qual é a pessoa que geralmente mais temos medo de perder? Nossa mãe, porque ninguém é capaz de amar como uma mãe ama. Ainda assim, nem mesmo o amor materno expressa totalmente o amor que Deus tem para conosco.

Por melhores que sejam nossas mães, como é o caso da minha – amorosa, paciente, cuidadosa, gentil, generosa… – elas possuem limitações, de maneira mais ou menos acentuada, porque são seres humanos como todos nós.

“Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca. Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas” (Isaías 49,15-16).

Esse questionamento feito pelo profeta Isaías é praticamente impossível de acontecer, mas sabemos que existem casos em que os filhos são, sim, infelizmente, abandonados, esquecidos. Mas Deus, ao contrário, nos afirma: “E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca. Eis que estás gravada na palma de minhas mãos, tenho sempre sob os olhos tuas muralhas”.

A fidelidade de Deus nos garante Seu amor eterno. Ele não nos abandona e Sua fidelidade é para nós como um escudo de proteção (cf. Salmo 90,4).

Ouvimos falar muito do amor de Deus, mas vivemos, tantas vezes, como se não conhecêssemos este amor, como se ele não fosse para nós. Por quê?

Porque nos falta uma experiência concreta com este amor que nos faz filhos de Deus, como nos afirma o apóstolo: “Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5,5).

O Senhor não quer que vivamos de teorias a respeito de Seu amor.

Eu, particularmente, passei muitos anos de minha vida com uma experiência intelectual do amor de Deus. Na teoria, eu sabia muita coisa e até anunciava para os outros. Contudo, no fundo do meu coração, eu não me sentia amado por Deus e, consequentemente, não me sentia amado também pelas pessoas com quem convivia. Eu não me achava filho, não acreditava que existia um lugar para mim, nem que era digno de qualquer coisa.

Passei muitos anos na insatisfação e não havia nada que pudesse ser feito para que eu me sentisse amado. Quando alguém fazia algo por mim ou expressava um afeto que me fazia sentir amado, logo eu encontrava um jeito, inconsciente, de estragar aquilo, me sabotava, entrava em algum sentimento de tristeza, morte, insatisfação, indignidade. Com Deus não era diferente; nem mesmo Seu perdão e misericórdia eu era capaz de acolher.

O próprio Deus foi me convencendo de que, no fundo, o que eu mais precisava era de uma experiência real e concreta com Seu amor, assumir que sou filho, porque, ao contrário, eu poderia passar minha vida inteira falando de Seu amor sem me reconhecer realmente amado por Ele.

Este ano (2021), tive a oportunidade de vivenciar por um mês um retiro de cura interior, no qual pude olhar para toda minha história de vida pessoal, desde a minha concepção, minha relação com meus pais e irmão; olhar para minhas fragilidades e pecados, e enxergar em tudo isso o amor do Pai que nunca me abandonou e que me criou para a vida, para a felicidade. Mesmo tendo uma caminhada de quase 20 anos na Igreja, servindo ao Senhor, eu precisei, assim como o filho pródigo da parábola, retornar, deixar Deus restaurar minha dignidade, me dar vestes novas, calçar sandálias em meus pés, colocar um anel em meu dedo, me abraçar e beijar e me mostrar que sou filho amado (cf. Lucas 15,11-32).

O amor de Deus cura nossas feridas

Trazemos em nós marcas tão profundas, feridas em nossa história, traumas familiares, medos que nos impedem de vivermos como filhos amados. A experiência do amor de Deus é a única capaz de nos curar, para vivermos livres, como filhos que habitam na casa do Pai. Sem esta experiência viveremos insatisfeitos, buscando fora, nas pessoas, nas coisas, nas conquistas, aquilo que somente o amor do Pai nos pode dar. E no final estaremos tristes, amargurados, porque nada pode substituir o amor do Pai em nossas vidas, assim como nada pode substituir o amor de uma mãe na vida do filho.

Temos um lugar no coração do Pai e é aí que devemos permanecer, pois “o escravo não fica na casa para sempre, mas o filho sim, fica para sempre” (João 8,35). Por isso, é preciso clamarmos ao Pai com insistência: “Pai, dá-me a graça de uma experiência concreta com o Teu amor!” 

Esta tem sido minha oração e sei que devo continuar insistindo, até o dia de minha morte, quando, enfim, me encontrarei para sempre entregue e acolhido nos braços do Pai; sei que nisto está a minha alegria e a solução para muitos conflitos em minha vida: saber-me filho amado do Pai.

Quando confiamos na fidelidade do amor de Deus, que não nos abandona nunca, por nada, ainda que tenhamos levado uma vida devassa como o filho pródigo, somos como aquela casa que foi construída sobre a rocha: ventos e tempestades não são capazes de nos abalar e nos fazer ruir, porque estamos firmados na fidelidade e no amor que nos protege e sustenta (cf. Mateus 7,24-25).

Quando conhecemos e experimentamos este amor na dor, tribulação, angústia e dificuldades da vida, e mesmo se formos abandonados, pela fé podemos dizer: “Pai, eu sei que meu nome está gravado na palma de Tuas mãos e que, por isso, não serei esquecido e abandonado por Ti. Eu sou Teu filho amado”. Como Cristo na Cruz, podemos nos lançar inteiros nas mãos do Pai, confiando que Ele cuida de nossas vidas, porque nos ama (cf. Lucas 23,46).

Edvandro Pinto
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator

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