A Igreja já te decepcionou?

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Se tem algo que marca todos os seres humanos, esse “algo” é a expectativa. Sim, todos nós ficamos empolgados com relação a algo que esperamos: seja o início das férias, um encontro amoroso ou a chegada de um produto pedido pela internet. Quanto maior a espera e a confiança que depositamos, maior a expectativa. Porém, toda moeda tem dois lados: quanto maior a expectativa criada, maior será a decepção se as coisas não ocorrerem conforme o esperado. Essa é a razão de muitas decepções amorosas ou profissionais. E é também, infelizmente, a razão de decepções com a Santa Igreja.

Na teoria, é bastante compreensível que as pessoas se decepcionem com a Igreja, afinal, é a instituição fundada pelo próprio Cristo. Ninguém espera que Deus falhe em Seus projetos divinos. Desta maneira, não é raro que as pessoas abandonem a religião sob a alegação de ficaram “decepcionadas” com o que viram. Se nós olharmos bem de perto, perceberemos que tais decepções são infundadas – e, muitas vezes, injustas.

É preciso entender 

A primeira coisa que precisamos entender é o fato de que todas as decepções estão relacionadas com uma expectativa. Vamos usar um exemplo: um restaurante é inaugurado na cidade e promete oferecer o melhor prato da região. Um determinado sujeito fica empolgado com o anúncio e já imagina toda a cena: ele sentado em uma mesa próxima à janela, vendo toda a paisagem, ouvindo uma música clássica de fundo e se deliciando com uma carne de primeira. Ao frequentar o estabelecimento, vem toda a decepção: o prato até era gostoso, mas não havia mesas próximas à janela; a música de fundo não era clássica, mas pop. O sujeito vai embora e promete nunca mais voltar, já que ficou profundamente decepcionado.

É um exemplo simples (talvez até simplório demais), todavia nos ajuda a compreender. Perceba que o restaurante prometeu o prato delicioso e nada mais. A expectativa do cliente estava inteiramente baseada em fatores secundários, que o proprietário jamais poderia adivinhar. A culpa da decepção não foi do estabelecimento, e sim, do próprio cliente.

O que esperamos dos outros? 

Esta é a grande lição que precisamos aprender: se nós cultivarmos expectativas ilusórias e irreais, fatalmente seremos decepcionados – e depois teremos a tendência de culpar os outros. Quer um exemplo bem claro? Olhe os casamentos: grande parte das pessoas se casa sob a expectativa de que o cônjuge lhe fará uma pessoa feliz e completa. Nenhum cônjuge no mundo poderá prometer isso, uma vez que, somente Deus tem o poder de completar os corações. Quando as pessoas finalmente percebem que o marido ou a esposa não preenchem completamente o seu vazio, passam a se dizer “decepcionadas” com a vida de casado.

Tente se lembrar das ocasiões em que você ficou mais decepcionado. Pode ser que a sua expectativa tivesse fundamento: se você contrata alguém para pintar sua casa, é razoável que você espere uma parede bonita; se você segue rigorosamente a dieta, é normal que fique chateado se não emagrecer. Há situações em que realmente esperamos muito – e acabamos sendo injustos ao culpar os outros pelas nossas frustrações.

Jesus foi motivo de “decepção” em sua época

Quando Nosso Senhor se encarnou no seio da Virgem Maria, existia uma grande expectativa por parte do povo judeu. Os judeus já foram muito gloriosos no passado, mas vinham passando por diversas humilhações. Chegaram a ser exilados para a Babilônia. A humilhação mais recente era o domínio do Império Romano. Entretanto, havia diversas profecias indicando que um dia Deus mandaria um Rei ungido, para estar à frente do seu povo. Este Rei prometido era conhecido nas profecias sob o nome de Messias.

Os judeus, então, estavam ansiosos para a chegada do tal Messias, e criaram uma expectativa enorme sobre isso. Imaginaram que seria uma espécie de imperador militar, que venceria os seus inimigos pela espada e conquistaria muitas riquezas para o povo. Porém, conforme sabemos pelo Novo Testamento, o tão esperado Messias não nasceu em um castelo luxuoso, mas em uma gruta com os animais; não foi colocado em um berço de ouro, mas em uma manjedoura; Ele não veio trazer a libertação política e econômica, mas a libertação dos pecados. As expectativas do povo se frustraram, logo, os judeus ficaram decepcionados com o Messias enviado.

Perceba que, ao se concentrarem em sua decepção, os judeus deixaram de perceber a grande honra que estava diante deles. Ficaram chateados que o “Rei prometido” usava apenas uma coroa de espinhos (enquanto eles esperavam uma coroa de diamantes), e não viram que o próprio Deus lhes estendia a mão e oferecia uma salvação eterna e inigualável.

O que devemos esperar da igreja? 

Entendendo a decepção dos judeus com o Messias, conseguimos entender bem a decepção dos cristãos com a Igreja – afinal, conforme ensinado por São Paulo, a Igreja é o Corpo Místico de Cristo presente no mundo. As pessoas se decepcionam com a Igreja porque esperam que Ela responda as mais diversas expectativas … ainda que contrárias aos ensinamentos de Cristo.

A Igreja promete ensinar a verdadeira fé; distribuir os divinos Sacramentos (que são indispensáveis para a santidade); um caminho seguro para a salvação; promete uma doutrina infalível e clara. Todas estas coisas podem ser esperadas e se você confiar nisso jamais será decepcionado. O Cristo afirmou que as portas do inferno jamais venceriam a Igreja – e o Cristo não mente!

Infelizmente, não olhamos para a Igreja em busca de salvação ou da verdade, e sim, visando coisas que jamais foram prometidas. Conheço uma pessoa que já foi católica e abandonou a fé, com a alegação de que “os cristãos não possuem um bom acolhimento”. No fundo, o que essa pessoa esperava não era o sobrenatural, mas uma convenção social. Não estou dizendo que os católicos não podem ser acolhedores (na verdade, deveriam ser); o que estou dizendo é que a sua fé não pode se basear em coisas banais.

A grande maioria das decepções com a Igreja, na verdade, são decepções com os filhos dela: com os padres, bispos, religiosos ou mesmo os conhecidos da paróquia. Jamais alguém prometeu que você encontraria pessoas perfeitas na Barca de Pedro. Se você for ao hospital, o que mais encontrará será pessoas doentes, que buscam uma cura. Do mesmo modo, na Igreja, encontrará pessoas com as almas doentes que buscam a salvação.

Esperemos o que realmente importa 

Precisamos ter muito cuidado: os judeus esperaram o Messias errado e foram afogados pela decepção, de modo que não conseguiram enxergar a riqueza diante dos próprios olhos. Podemos também correr o risco de nos fecharmos em um sentimento de decepção e injustiça e acabar perdendo o tesouro que a Igreja realmente nos oferece: a Vida Eterna com o Deus Altíssimo.

Criemos as expectativas certas e esperemos aquilo que realmente importa! Isso não significa, obviamente, que não haverá frustrações no caminho. Contudo, temos a certeza de que no final, o Senhor “enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor” (Ap 21,4), pois depositamos a nossa esperança Naquele que cumpre todas as suas promessas.

Que a Virgem Santíssima, a Mãe da Igreja, nos guarde sempre em seus cuidados.

Rafael Aguilar Libório
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator

 

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