A Misericórdia Divina

0
Misericórdia

Podemos afirmar, com toda certeza, que vivemos o tempo mais esperado da história da Salvação, o tempo da Misericórdia. Tempo esperado pelos patriarcas e profetas do Antigo Testamento, tempo da Misericórdia manifestada em Cristo Jesus, pois Ele é a própria Misericórdia do Pai revelada em sua encarnação, morte e ressurreição.

Talvez tenhamos uma concepção um pouco errada da Misericórdia Divina, tanto que por ignorância a banalizamos, e em muitas vezes a enxergamos como um “coitadismo” em nosso favor por parte de Deus. E, em situações mais extremas, ela é ridicularizada.

A Misericórdia Divina em favor do homem é a resposta surpreendente de Deus ao demônio, sedutor do homem no paraíso. Assim como nós, ele é criatura de Deus, quando criado não foi levado à presença beatífica de Deus, mas colocado à prova, a grande batalha no céu. Nesta batalha, o Demônio sabia que Deus era o Criador, mas desconfiava da perfeição de Deus e achava que poderia ser mais realizado vivendo independente dele, ou melhor, querendo ser como o Criador (cf Is14,13-14). Mas nesta batalha entre todos os anjos criados houve a decisão daqueles que permaneceram fiéis ao Criador e foram entronizados na presenta do Criador.  Então se maravilharam do esplendor da sua Glória – “quem como Deus”, definição de São Miguel Arcanjo, Príncipe da milícia celeste, e uma vez na Glória entronizados e por ela revestidos, não mais podem decair. Bem ao contrário é o destino de Satanás e daqueles que decidiram o seguir: foram expulsos para o mais profundo abismo.

Não podendo o Demônio atacar diretamente a Deus, ele vai seduzir o homem, a obra-prima da criação, levando nossos primeiros pais a pecarem e a serem expulsos do paraíso, da comunhão com o Criador.

Diferentemente dos anjos decaídos que são espíritos e tinham a capacidade de uma decisão perfeita e irreversível, por isso para eles não tem mais salvação, o homem foi seduzido pelo Demônio, e não tinha a capacidade de ter uma decisão perfeita e cabal, por isso Deus promete a Salvação (cf Gen 3, 15).

Como aconteceria essa salvação?

Na Bíblia, existia apenas a promessa, mas não o meio (de) como ela aconteceria, se realizaria pelo Filho, mas não se sabia de que forma se manifestaria.

A sedução do homem pelo Demônio acontece por inveja (cf Sab 2,24). Mas também como uma espécie de desafio dele para com a perfeição do Criador. Por isso Jesus quando inicia sua vida pública vai proclamar a sua doutrina nas bem-aventuranças (cf Mt 5ss), e no cerne da sua doutrina vai dizer: “sede perfeito como o Pai celeste é perfeito”. Jesus anunciava para o povo, mas tinha sempre um fiel expectador, o próprio Demônio, pois com certeza era assíduo em acompanhar a vida pública de Jesus. Com isso, Jesus afirma a perfeição da Criação, do Criador, e que a criação deve ser reflexo do Criador e, ao mesmo tempo, Jesus rebate o desafio de Satanás, como se dissesse olhos nos olhos: se desconfiava da perfeição do Criador, vim para prová-la.

A Misericórdia, a surpreendente manifestação de Deus em favor do homem

No A.T., a Misericórdia aparece de forma velada, ainda não revelada, muito mais como uma promessa, do que uma real manifestação, mas podemos ver o prenúncio dela na batalha de Jacó com o Anjo, em que lutaram a noite inteira e Jacó venceu (Gen 32, 25-30). Aqui está o prenúncio de como Deus no salvaria, deixando se “vencer” pelo homem, como vai acontecer em sua plenitude na cruz. Mas ainda era um prenúncio, não muito claro.

No Novo Testamento, a grande revelação da Misericórdia está na parábola (repetição) do Filho Pródigo, texto carregado de mistério e revelações. Muitos afirmam que Jesus estava pregando para os mais pecadores dos pecadores e tinha com certeza como ouvinte o desafiador, o próprio Satanás. E Jesus, com sua explanação (cf Lc 15,11-32), vai mostrar a figura do filho mais novo, que representa a humanidade decaída, que expulsa do paraíso caminha de costas para Deus para uma terra muito distante e lá conhece o auge da miséria, consequência do pecado, chegando a tal situação de indignidade, que nem à lavagem dos porcos, animal tido com impuro pelos judeus, tinha direito. É o verdadeiro fundo do poço.

Mas no homem, criado à imagem e semelhança de Deus, apesar de ter perdido a semelhança pelo pecado, pairava uma fagulha da Glória do Criador, inerente a ele bem como a todo o criado, que é uma explosão dessa fagulha de Glória, pois sem essa fagulha nada poderia subsistir. E estando neste fundo do poço, lembra-se do seu Criador, mesmo que de maneira vaga, distante e até descrente, e tem um gesto de mover-se para o Criador em seu livre arbítrio. E o Criador, apaixonado pela criatura, obra-prima de suas mãos, corre-lhe ao encontro. Não temos com certeza a dimensão desse gesto, mas é como que de maneira hipotética o homem tivesse a mil km de Deus e o seu voltar fosse o mais sutil movimento de coração, de desejo pelo Criador. Ele percorre um passo e o Criador, movido de compaixão, percorre o resto do caminho para se lançar ao seu pescoço e o beijar em seu estado mais indigno possível: sujo, maltrapilho, fétido e purulento. Não se importa, corre ao seu encontro e manifesta a sua Misericórdia. O Deus que se rebaixa à mais profunda miséria do homem e o soergue de maneira admirável, eleva-o a uma condição superior à primeira, pois a obra da Redenção é superior à da Criação, colocando vestes novas, anel no dedo e sandálias aos pés, elevando-nos como sacerdotes (pelas vestes), profetas (pela sandália aos pés em prontidão para o anúncio do Evangelho da paz) e reis (anel no dedo símbolo da realeza – com Cristo, governamos) (cf I Ped 2,9). Jesus afirma assim a perfeição da criação que foi ferida pelo pecado, mas não destruída, é como uma obra-prima sobre a qual se lança um grande borrão que tira a sua beleza, mas não a exime de ser restaurada. E acima de tudo revela a surpreendente Misericórdia, até então velada, agora escancarada e depois plenamente na Cruz manifestada.

A Misericórdia é uma fagulha da Glória de Deus revelada em Jesus, e longe de ser uma fraqueza, nos ensina São Tomás de Aquino, revela sua onipotência, pois é uma fagulha da sua Glória a qual o Demônio não tem direito, mas nós sim em Cristo Jesus. E Jesus, através da Misericórdia do Pai é antídoto, o remédio, mas ao mesmo tempo é o protetor (exemplo do Omeprazol que nos protege quando tomamos uma medicação muito forte para que ela não seja veneno ao invés de cura), por isso Jesus tomou sobre si nossas dores (Is 53,4), senão seríamos aniquilados por essa Glória, ao invés de salvos.

Explicando

A criação é a manifestação da fagulha da Glória, em todo criado, ela está presente (esta fagulha da Glória) de forma inerente (a ela) (repetição). Essa fagulha de Glória sustenta toda criação e, consequentemente, o homem. Na Redenção, a Glória da Misericórdia aparece como uma intervenção de Deus, por isso Jesus precisa ser esse “omeprazol”, senão não resistiríamos ao poder dela. Mas em vista da Redenção, Jesus é esse protetor, não só o antídoto, que nos seria forte demais, devido ao nosso pecado.

A cruz, plenitude da Glória da Misericórdia

Só permanecem diante da cruz aqueles que estão com Maria, pois a Glória é forte demais. Longe de ser objeto de repulsa, a cruz é objeto de Misericórdia, de Glória e de Redenção, impossível de serem desassociadas, pois não existe Misericórdia sem a Glória, nem Redenção sem Misericórdia. Exemplo muito claro disso é São João que permaneceu fiel aos pés da cruz, mas junto de Maria e pode contemplar o esplendor da Glória manifestada na cruz. Por ser o Filho dado a Maria e também seu mais fiel discípulo, vai mergulhar de tal modo nessa Glória que em seus escritos estão revelações extraordinárias que só neles são encontrados, como seguem alguns exemplos: “No princípio era o verbo, e o Verbo estava junto de Deus, tudo foi criado por ele, não sem Ele”. Perpassa pelo mistério da vida pública de Jesus e sua redenção e mergulha na segunda vinda de Cristo, conforme nos descreve o Livro do Apocalipse.

Por isso somos a Igreja da Cruz, que jorrou do coração aberto de Cristo na Cruz. Não existe Igreja sem Cruz, e não se consegue contemplar a Glória da Cruz sem Maria, por isso sempre temos grandes crucifixos em cada altar e em cada Igreja. Arte humana feita para refletir, mesmo que de maneira muito distante, a Glória da Misericórdia manifestada na Cruz. E Glória não é algo que se extingue, ela é perene, por isso atualizamos em cada Santa Missa a Glória da Misericórdia de Deus no sacrifício do altar. É a Glória da Misericórdia que se perpetua até o nosso encontro como Glória definitiva, seja pela passagem da morte, seja pela segunda vinda de Jesus.

Por isso devemos receber Jesus em estado de Graça, porque é receber a Glória de Deus. Em pecado, ela seria para nós causa de juízo e condenação.

Conclusão

Misericórdia é muito mais do que nossas pequenas e, muitas vezes, falsas concepções num “piedosismo” de Deus por mim que peco constantemente. Misericórdia é a manifestação da onipotência de Deus que nos levanta do pó, da indignidade do alimento dos porcos, para o banquete do reino, banquete do filho reencontrado e elevado a uma dignidade superior à primeira.

Jesus é a Misericórdia em pessoa que vence o inimigo e proclama que Deus é perfeito e nós somos obra-prima do Criador. Misericórdia é o fio da Glória Divina que nos conduz à eternidade, à visão beatífica.

Elias Antonio Breda Gobbi
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

 

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.