Abandono: Senhor por que me abandonas-te?

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Abandono

O grito de abandono de Jesus na Cruz nos remete a todo abandono dos seres humanos, desde o sentimento de abandono da Adão e Eva ao serem expulsos do paraíso (cf Gen 3,23), da comunhão perfeita até à solidão de uma vida longe de Deus. A história da humanidade perpassa pelo abandono de cada um na antiga aliança até a última situação de abandono no momento da segunda vinda de Cristo.

Adentrando neste mistério, podemos ver – mesmo que por um prisma muito distante e ainda embaçado – o ato do mais profundo abandono, em que Jesus desce às profundezas da miséria humana, na qual está a raiz de todo pecado e de todo crime fruto do pecado. Ele toma sobre si nossas maldições, nossas faltas, nossas dores e solidões, e tudo isso de livre vontade.

O abandono de Jesus na Cruz é consequência da cólera humana contra o Filho de Deus e do abandono do próprio Pai. Podemos dizer que é a prova derradeira de Jesus, talvez a última investida de Satanás e também o clamor estridente da miséria humana, que retine em sua alma em atos de infidelidade, desprezo e escárnio. É uma batalha dupla: contra Satanás e o pecado – e todas suas consequências.

Era a última chance de Satanás para fazer Jesus desistir. Interessante ressaltar que em todas as outras situações de provação de Jesus, Ele tinha o refúgio do olhar do Pai, mas neste momento Jesus está sozinho, abandonado por tudo e por todos. Era última cartada do antigo inimigo: como se Satanás gritasse no Seu ouvido esse abandono do Pai – nos remete à história de Jó – e como a humanidade infiel não era digna de todo esse sofrimento.

Mas Jesus, no ato supremo de sua dor e humilhação, permanece fiel. Ele, como um imã, atraiu sobre si todo sofrimento, dor, solidão e toda desesperança.

Muitos pensam que a atitude Jesus na Cruz foi passiva, o que é um grande engano. Quando parecia que já não tinha mais o que fazer, vemos a reação estupenda de Jesus. Em relação a humanidade infiel e indigna do Seu sacrifício, Ele, como um boxeador (1) dos bons que sabe absorver os golpes e contra-atacar na hora certa, exclama: “tenho sede”. Sede das almas, sede da comunhão com sua obra prima, sede de amar até o limite último, e então lhe dão vinagre e fel. Jesus saboreia em seu paladar sequioso o mais puro amargor da alma humana, e deixa cair sobre toda sua língua em uma demonstração de misericórdia inexplicável. Descendo à miséria mais profunda do ser humano, deixa Satanás perplexo em seu furor e desestabiliza todo seu argumento. Assim, inaugura o tempo da misericórdia até então tão camuflada e pouco conhecida, desconhecida principalmente pelo o inimigo indigno dela. É um grande contragolpe.

Mas como um bom boxeador, ele guarda o golpe fatal, fulminante para a hora certa. Diante do abandono do pai e o grito de acusação do inimigo – nessa hora existia uma guerra tão terrível entre Jesus e as forças do inferno (guerra não de armas, mas das ideias) que nenhum ser poderia ver sem ser fulminado –, Jesus em um gesto de confiança total, absoluta e irresoluta, exclama: “Pai em tuas mãos eu entrego o meu espírito”. Que confiança extraordinária diante de toda contrariedade. É o golpe final, é o Jab (2) de direita que leva o inimigo a lona, só falta contar até dez conforme a regra do boxe. É a reação estupenda do Senhor, é a certeza de sua vitória.

Depois disso, tomado por uma profunda paz, o Príncipe da Paz, diz: “tudo está consumado”. Seria uma grande incoerência se Jesus morresse em agonia e em desespero, isso é para os incrédulos, mas o Senhor se deita sobre o madeiro – antes sinal de maldição e agora sinal de salvação – e expira. O fundamento desta paz está na experiência do Profeta Elias no Horeb, quando adentrou na caverna – que é o Coração aberto de Jesus – e Deus passou a brisa suave mais pura, sinal de paz e de redenção (cf IRs 19).

Então, Ele adentra no reino da morte como o Rei da Vida, portando o estandarte da sua vitória, e a morte se prostra diante do Rei e o reverencia. Ele vai até as suas profundezas e toma pelas mãos Adão e Eva e os arranca de seu seio (cf homília do sábado Santo) e os eleva para o Céu, e com eles todos que aguardavam a grande libertação. Ele transita pela morte com toda sua soberania, e ela não pode detê-lo. Muito pelo contrário: Cristo santifica a morte, tornando-a um meio de chegarmos à eternidade.

Por que então temos tanto medo da morte?

Na solidão de Jesus também está o grande duelo com a morte. Isso vemos na vida dos Santos: antes de morrer sofrem muito, mas associam suas dores às de Cristo. Foi assim com Santa Terezinha, com São João Paulo II – que pediu para não ser mais amenizada aquela dor por seu médico. O santo queria ir ao encontro da morte, não em um ato irresponsável, mas com a mentalidade daquele que entende o sentido do sofrimento. Na dor – como que por uma fresta – ele já conseguia ver a verdadeira Glória, a Glória do Pai. Por isso, o derradeiro momento dos que têm fé é extraordinário, mesmo que dure poucos segundos, é o encontro da paz e da reconciliação do gênero humano com a morte. Ela não é mais uma barreira, mas uma passagem, uma fresta que agora se alarga para adentramos na Glória. O medo da morte é sinal de uma conversão ainda incompleta, sinal de uma fé ainda muito fraca.

Um grande paradoxo

O que parecia uma derrota é na verdade a vitória: “o véu do templo rasgou-se então de alto a baixo em duas partes”. O centurião que estava diante de Jesus, ao ver o que tinha expirado assim, disse: “este homem era realmente o Filho de Deus” (Mc 15,38-39). E aqui está o grande paradoxo, no momento que Jesus expira o centurião o proclama como Filho de Deus, se converte instantaneamente (diz a tradição ser o centurião São Longuinho).

Muitos dizem que não creem em um Deus “morto”, mas como explicar esta frase do centurião que resume todo o Antigo Testamento e a verdadeira identidade de Jesus? É claro que Jesus não ficou preso na morte, “Ó morte onde está a tua vitória”, mas é bem verdade o fundamento da vitória de Cristo é a sua morte – sinal de entrega e abandono total e irresoluto à vontade do Pai, em favor da humanidade para a sua redenção, reconciliação e justificação.

O nada de Jesus

Em seu esvaziamento de si mesmo Ele nos resgatou, enriqueceu-nos e nos redimiu. Assim, a obra da Redenção se tornou superior a obra da criação. Mas, com tudo isso temos que associar nossas vidas, nossas dores, nossas chagas fétidas e purulentas (cf Sal 37), toda nossa mesquinhez e “justicismo” com as dores de Jesus, para aí sermos sarados.

 Mas interessante ressaltar que essa atitude não pode ser só passiva, mas a exemplo de Jesus que teve uma reação proativa diante das adversidades, temos que ter também uma reação proativa: uma atitude de confiança absoluta e amor filial muito grande, para assim vencermos nossos desafios.

Penso que as vicissitudes do tempo presente têm levado o homem moderno a uma reação míope na sua fé. Temos nos preocupados demais com coisas temporais, assim nós somos levados a uma letargia em relação a vida eterna.

Diante das provações e sofrimentos que vislumbramos, muitas vezes queremos uma solução para não as enfrentarmos, preferimos uma vida de conforto. Temos um medo exacerbado da morte, parece que estamos sempre querendo afastá-la – São Paulo vai nos dizer: morrer pra mim é lucro, viver é Cristo. Precisamos saber conjugar bem essas situações em nossa vida.

Penso que diante dos desafios do tempo presente, o grande clamor que devemos ter é pelo dom infuso da fortaleza, foi por ele que Jesus resistiu fiel, assim como todos os mártires que derramaram seu sangue. A dor, o abandono, as provações, os sofrimentos, inclusive as perseguições do tempo presente, não podem apagar nem enfraquecer nossa fé, muito pelo contrário tem que refiná-la (3).

1 – Usando o boxeador como um exemplo diminuto para ilustrar a grande batalha de Jesus

2 -Jab é um golpe do boxe, rápido e de longo alcance que vai decidir seu destino no ringue.

3- Frase inspirada no filme Eu ainda acredito (I still believe).

Importante ressaltar que a cronologia tão cara para ser humano, não é tão importante assim para Deus. Se nos fundamentarmos só na cronologia podemos cair em algum engano.

Fonte: livros, pregações e retiros espirituais.

Elias Antonio Breda Gobbi
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator 

 

 

 

 

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