Busque o bom, belo e verdadeiro

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bom
bom belo e verdadeiro

De forma praticamente automática, na vida sempre desejamos aquilo que é bom. Sempre contemplamos o que é belo. E por último, sempre queremos acreditar no que é verdadeiro. O bom, o belo e o verdadeiro compõem juntos a tríade de valores para os quais todo ser humano é racionalmente inclinado desde o princípio da humanidade. Filósofos como Platão, Aristóteles e São Tomás de Aquino se dedicaram em desenvolver teorias para explicar esse comportamento e sua importância. Nada disso parecia de difícil aceitação na época, não até o século XX chegar e trazer consigo mudanças drásticas e perigosas quanto ao que é de fato considerado bom, belo e verdadeiro, e até que ponto devemos nos permitir ser guiados por esses transcendentais.

Na ética de Platão, o Bem Supremo é definido como o destino final de todas as coisas, a perfeição. Enquanto isso, o Belo é a forma com que o Bom se manifesta, representado pela harmonia. A pessoa que busca o Belo em união com o Bom vive a moral e o equilíbrio de vida. Já para São Tomás, o Bom é aquilo para qual o nosso apetite tende, o Verdadeiro é a associação da inteligência com o objeto, e o Belo se faz como a expressão de alegria diante do conhecimento do objeto (o verdadeiro) e a vontade no objeto (o bom). O Belo é algo atrativo, que gera prazer ao contemplar, jamais se limitando somente à estética, mas também sobre ações e comportamentos.

A busca pelo Bom, o Belo e o Verdadeiro são, portanto, nada mais nada menos que a bússola para que o homem se encontre com o Criador. O Catecismo da Igreja Católica traz logo no seu início a exortação: “As múltiplas perfeições das criaturas (a sua verdade, a sua bondade, a sua beleza) refletem, pois, a perfeição infinita de Deus. Daí que possamos falar de Deus a partir das perfeições das suas criaturas: porque a grandeza e a beleza das criaturas conduzem, por analogia, à contemplação do seu Autor” (CIC 41). Não é à toa que a busca por essas três coisas está atrelada ao homem de maneira indelével. Nós ansiamos por encontrá-Lo, ainda que inconscientemente.

Todavia, a cultura moderna dos antivalores origina-se justamente na distorção dessa trilha capaz de levar o ser humano ao encontro com Deus. Dentre muitos pontos, a Beleza é aquela que mais tem sido desprezada. Justo ela, o primeiro contato com o Divino, a parte mais externa do caminho. A perda de sua essência pode resultar na perda do Bem Supremo. As belezas do mundo são imperfeitas, mas nos conduzem à Beleza do Céu. Depois do século XX, no entanto, a humanidade deixou de considerar a beleza importante. E pior: iniciou-se uma terrível onda de exaltação da feiura e do esquisito. Muitos ainda não entendem a gravidade disso, mas como disse o filósofo britânico Roger Scruton: “Eu acho que nós estamos perdendo a beleza, e há um risco de que, com isso, nós percamos o sentido da vida.

A essência do Belo

É possível usar da arte para entender melhor a mudança de mentalidade sofrida no mundo no último século. Antes, a beleza exercia um papel quase sagrado nas mais diversas artes, da música às pinturas e à moda. O maior objetivo da arte era mostrar que a vida valia a pena, sendo um refúgio nos momentos de agonia ou uma celebração nos momentos de alegria. Em sua Suma Teológica, São Tomás de Aquino descreve a beleza como algo íntegro, harmônico e com brilho e esplendor. Não depende, assim, do gosto pessoal de cada ser, embora existam coisas que sejam mais atraentes para uns do que para outros. O papel da beleza é apontar para o Verdadeiro, mostra o real sob a luz do ideal, valoriza o homem e sua racionalidade.

A “virada de chave” foi quando se começou a achar que o Belo não tinha mais sentido, uma vez que o mundo moderno era perturbador demais pra isso. A banalização do sexo e da morte, junto com o destaque das perturbações, viraram o foco nas mais diversas obras enquanto o Belo foi desvalorizado. Uma vez que a base da beleza é o amor (a junção do Bom e do Verdadeiro), o culto à feiura nada mais nada menos faz a não ser profanar o amor, indicando que o homem não é digno dele e fazendo-o perder assim o sentido da sua vida.

O Senhor nos criou para o amor. Como consequência, Ele nos criou para a Beleza. O Belo e o sagrado caminham lado a lado. Enquanto a instalação dos antivalores na modernidade valoriza o espírito animal e o distanciamento das virtudes, o Senhor nos convida a buscar o Bem Verdadeiro, que é Ele, através da experiência com o Belo, da adesão às virtudes e às boas obras. São Tomás nos ensina que é imoral qualquer ato que não nos leve a atingir esse fim último, o Bem Verdadeiro e Supremo que é o Senhor. Por isso, quando se perde a essência da beleza, o mundo se afunda em um grande vazio, pois o fim último também se perde.

Para quem deseja o Céu e a Santidade, não basta somente saber dos perigos existentes da cultura atual para afastar-se dela. É preciso também que se faça uma experiência com o Bom, o Belo e o Verdadeiro, para que em sua liberdade seja possível optar por Ele e conhecê-Lo cada dia mais. Quando mais nos aproximamos dessa tríade de transcendentais, mas dificilmente seremos confundidos pelas propostas que o demônio nos apresenta através do mundo moderno.

A busca pelo Bom, Belo e Verdadeiro pode soar ultrapassada para quem for, mas todo coração humano está inclinado para isso de alguma forma – não é possível desconstruir a essência de nossa alma. Como cristãos autênticos, devemos entender que, para chegar ao Céu, precisamos nos lembrar que nesta Terra somente o Senhor é Bom, somente suas obras são Belas e somente suas palavras são Verdadeiras.

Giovana Cardoso
Postulante da Comunidade Católica Pantokrator

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