Infância Espiritual

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A expressão infância espiritual, a princípio, pode soar como infantilidade ou imaturidade espiritual. Porém, ao contrário do que acontece com o nosso crescimento físico, a pequenez e dependência de Deus nos levam ao crescimento espiritual e à maturidade na fé. Quanto “menores” formos, mais cheios seremos da graça de Deus.

No Evangelho, há algumas passagens sobre a infância espiritual: “Eu te bendigo, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25). E ainda: “Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas. Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará” (Lc 18, 16-17).

Por meio das palavras acima, as Sagradas Escrituras nos revelam que para sermos capazes de acolher, conhecer e viver as coisas de Deus é necessário nos tornarmos dóceis, simples e puros como uma criança. É preciso que tenhamos as nossas mentes e os nossos corações abertos à lógica divina e às realidades do Céu.

A infância espiritual em Santa Teresinha

Embora a infância espiritual não fosse uma novidade na vivência das relações com Deus, ela foi a grande descoberta de Santa Teresinha. E ela trouxe essa descoberta a toda a Igreja, a todos nós.

Teresinha, uma jovem de Lisieux, nasce na França do século XIX. Época fortemente marcada pelo Jansenismo, pensamento na Igreja que acreditava que a santidade era conquistada apenas por aqueles que eram fortes e robustos, capazes de enormes sacrifícios e de obras grandiosas. Sendo uma menina com profunda fragilidade física, psíquica e emocional, devido à sua história de vida, Teresinha se reconhecia incapaz de grandes sacrifícios para Deus e, portanto, incapaz do ideal de santidade para sua época.

Em confidência à sua irmã Inês, Teresinha explicou seu entendimento sobre a infância espiritual:

“É reconhecer o seu nada, é esperar tudo do bom Deus, assim como uma criança pequena espera tudo do pai; é não se preocupar com nada e, de modo algum, fazer fortuna. Mesmo entre os pobres, dá-se à criança o que lhe é necessário, mas assim que ela cresce o pai não quer mais alimentá-la, dizendo-lhe: ‘Agora vá trabalhar, você pode se sustentar”.

“Foi para não escutar isso que eu não quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar a vida, a vida eterna do Céu. Permaneci, então, sempre pequena, tendo uma só ocupação: colher flores, as flores do amor e do sacrifício, oferecendo-as ao bom Deus, para seu agrado.”

 Confiança no Amor de Deus

Santa Teresinha descobriu que Deus Se atrai pela pequenez porque, naqueles que são pequenos e frágeis, Ele pode derramar o Seu Amor e a Sua Misericórdia. Revelar Seu Amor Imenso e Incondicional por nós é desejo de Deus.

Somente um coração simples e dependente de Deus é capaz de acolher o Seu Amor. O Reino dos Céus, diferentemente das coisas do mundo, não se conquista com grandeza e autossuficiência, mas sendo pequenos, dependentes de Deus e confiantes no Infinito Amor Divino.

Santa Teresinha encontrou, então, a pequena via, o caminho da infância espiritual: tornar-se santa não por méritos humanos, mas pela potência da Santidade própria de Deus. Abandonar-se confiantemente no Amor de Deus foi o grande feito de Teresinha. Sendo pequenina, era incapaz de subir os altos degraus da santidade, mas através da Misericórdia e da Potência da Graça de Deus, como em um elevador, ela alcançou as alturas da santidade.

 Desejo por Deus e pelas almas

É também o movimento do Amor Divino em Teresinha que a capacita a amar. Preenchida pelo Amor de Deus, ela transborda esse amor no desejo de agradar a Cristo e de amar e fazer tudo pelo seu próximo como faria para Jesus.

Teresinha foi uma pessoa de desejos de santidade grandiosos. Foi tamanho desejo que fez com que ela ingressasse no Carmelo aos 15 anos, se tornasse uma grande santa em apenas 24 anos de vida, e, vivendo como uma simples carmelita em um pequeno Carmelo, recebesse os títulos de Padroeira das Missões e Doutora da Igreja.

Sua obra “História de uma Alma” narra um episódio de sua infância com suas irmãs, em que, diante de um cesto de brinquedos, ela exclama: “Eu escolho tudo!” Da mesma forma, na Igreja, ela desejava ser tudo: mártir, profeta, missionária… “Então, delirante de alegria, exclamei: Ó Jesus, meu amor, encontrei afinal minha vocação: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, tu me deste este lugar, meu Deus. No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor e desse modo serei tudo, e meu desejo se realizará”.

Ardente de desejo também pela salvação das almas, Teresinha descobriu que o grande segredo está em realizar todas as pequenas ações e sacrifícios do cotidiano com muito amor. Uma simples tarefa, como “apanhar um alfinete do chão”, se feito com muito amor, pode converter uma alma e produzir frutos de santidade.

 Pela via da infância espiritual, somos todos capazes da santidade.

Através da via da infância espiritual, a santidade torna-se alcançável a todos nós. Ela escreveu: “Quero procurar o meio de ir para o Céu por uma pequena via, bem direta, bem curta, um pequeno caminho todo novo”.

Todos somos chamados à santidade, este é um chamado universal. Se tivermos a coragem de nos fazermos pequenos, cheios da graça de Deus, nós a conquistaremos na simplicidade de nossa vida cotidiana, “colhendo as flores do amor e do sacrifício e oferecendo-as ao bom Deus”, assim como aprendemos com a nossa querida Teresinha.

Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, rogai por nós!

Que o Bom Deus nos abençoe!

Fontes: Sagradas Escrituras, palestras sobre Santa Teresinha, trechos de “História de uma Alma” e outros escritos de Santa Teresinha.

Adriane Luz
Consagrada na Comunidade Católica Pantokrator

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