Não tem uma receita pra amadurecer

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amadurecer

Amadurecer! Quem não quer?

Percebemos, no dia a dia, muitas pessoas influentes, mas claramente imaturas. Observamos também tantas pessoas numa busca incansável por cursos, palestras, livros sobre autoconhecimento, formação humana, crescimento espiritual, temperamentos e, por mais que busquem, não chegam ao sonhado amadurecimento… O que está faltando? De que as pessoas realmente têm sede?

Dentro de nós, existe uma sede de transcendência, de encontrar algo a mais, uma busca incansável a que é difícil até dar nomes. Não seria aqui a busca de alguém? Mas quem poderá nos saciar? No encontro de Jesus com a Samaritana (conferir em Jo 4,10), Ele diz a ela que “Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e te daria uma água viva”. Ela logo pede (Jo 4,15): “Senhor, dá-me dessa água, para eu já não ter sede nem vir aqui tirá-la”.  Com essa resposta, percebemos que ela não havia entendido nada. Ela estava em busca de algo que a saciasse momentaneamente, algo que não exigiria mais dela esforço, busca…, mas Jesus quer dar de si mesmo, quer saciá-la plenamente.

Nossa caminhada nessa vida é uma constante busca de encontro com o eterno. Percorremos um caminho de encontro. À medida que damos passos, vamos deixando vícios, pecados, maus hábitos e vamos nos lançando em coisas boas, nas virtudes. Essa caminhada não é fácil. É necessário decisão, determinação, constância, resiliência e coragem. Sim, coragem de nos olharmos, aceitando o que somos, com nossas mazelas, misérias, fraquezas e também descobrindo e aceitando que, mesmo com tudo isso, somos um dom. Deus nos criou para ser dom, pessoas capacitadas de muitas virtudes, capazes do amor e de amar.  Todos nós, em nosso íntimo, temos o desejo de sermos pessoas mais maduras, menos mimadas, menos levadas por nossos amores, caprichos e infantilidades…

Mas afinal, o que é amadurecer?

Assim como eu, você deve conhecer muitas pessoas jovens, nos seus 17/25 anos, que nos parecem tão amadurecidas, e, por outro lado, pessoas que já passam dos seus 30/40/50 anos e que parecem verdadeiros adolescentes. Que triste! Os anos se passaram, mas permaneceram na euforia da juventude, na sede de experimentar, na vontade de não assumir responsabilidades e compromissos, com um querer fraco. Pode ser que essas pessoas estejam ao nosso lado, ou até mesmo dentro de nós mesmos. É possível que nessa hora você pense em seus amigos, filhos, cônjuge, irmãos, pais, pessoas que têm autoridade sobre você como chefe, coordenadores… Cabe aqui, sabedoria para corrigi-los fraternalmente e ajudá-los nesse processo de amadurecimento.

Sim, entendo que amadurecer é um processo e todos devemos desejá-lo e favorecê-lo em nossas vidas. Alimentar nossa vida, nossos pensamentos com uma sede de transcendência, de busca de valores humanos, de virtudes. Muitas vezes queremos amadurecer, mas não queremos mudanças, conversão, renúncias, sacrifícios. Somos preguiçosos, autossuficientes, arrogantes e egoístas. Conformamo-nos com aquilo que somos, nos satisfazemos com tão pouco e não esperamos mais nada da vida ou esperamos que a vida nos dê tudo, mas sempre acomodados na lei do mínimo esforço.

Vivemos um tempo de uma cultura extremamente superficial e egocêntrica, carente de valores e de virtudes, de experiências de vida.

Viver bem cada dia, doando tudo de nós, sendo um dom na vida do outro, tirando o olhar de nós, nos colocando a serviço, disponíveis para o bem acontecer custe o que custar, sendo generosos e solidários, acolhendo a vida das pessoas, ouvindo as suas histórias e aprendendo com os ensinamentos da vida… isso sim vai nos amadurecendo dia a dia.

São Josemaria Escrivá em Caminho, n. 826, nos diz: “Tudo aquilo em que intervimos os pobrezinhos dos homens – mesmo a santidade – é um tecido de pequenas insignificâncias que, conforme a intenção com que se fazem, podem formar uma tapeçaria esplêndida de heroísmo ou de baixeza, de virtudes ou de pecados”. Podemos amadurecer nas virtudes através do nosso trabalho, dos nossos afazeres diários, no encontro com as pessoas, no bom dia que desejamos ao porteiro…

Afinal, como identificar em mim se estou amadurecendo com o passar dos anos ou se sou imaturo?  

 

Dom Rafael Llano Cifuentes, autor de livros excelentes, tem um livro maravilhoso cujo título é MATURIDADE, da Editora Quadrante, do qual vale muito a pena fazer uma leitura.

Transcrevo aqui, segundo ele, o perfil da imaturidade e da maturidade que consta nesse livro, que muito nos ajudará nesse processo de amadurecer a cada dia.

Perfil da imaturidade:

  • A autoafirmação individualista;
  • A instabilidade emocional;
  • A falta de avaliação objetiva da realidade;
  • A desproporção do muito que se deseja e o pouco que se é capaz de realizar;
  • A ausência de equilíbrio para discernir quando deve ousar sozinho e quando valer-se da experiência dos outros;
  • A carência de ponderação para encontrar o justo meio entre dois extremos;
  • A incapacidade de definir valores e de comprometer-se com eles;
  • A falta de paciência e a afobação; a carência de solidariedade e sentido de responsabilidade.

Aqui, o perfil da maturidade, de uma pessoa que soube amadurecer com o passar dos anos…

  • A firmeza interior da pessoa;
  • A fusão harmônica entre o pensar, o sentir, o querer e o agir;
  • A segurança e a serenidade no viver;
  • A tomada de consciência das próprias limitações, do caráter reduzido das próprias energias, da índole transitória da vida humana;
  • A compreensão do esforço que exige iniciar uma obra, dar-lhe continuidade e terminá-la cabalmente.
  • A capacidade de domesticar os impulsos para convertê-los em virtudes;
  • O conhecimento objetivo e profundo das outras pessoas, das suas verdadeiras qualidades e também das suas carências, preguiças e desleixos, deslealdades e insinceridades, máscaras e teatralidades;
  • A abertura para os outros e a firme decisão de transformar a vida num serviço a todos.

Não tenhamos medo de nos reconhecermos nos itens acima. Ora maduros, ora tão imaturos. Como eu disse, é um processo, é um caminho que temos que percorrer todos os dias. Avançando sempre, mas recuando quando necessário. Permitindo-nos ser corrigidos, guiados por mãos mais experientes e, principalmente, nos deixando ser guiados por Deus, pela sua mão poderosa que deseja segurar a nossa mão e nos conduzir. Sejamos criancinhas, mas sem infantilidade. Criancinhas que se deixam ser conduzidas pela mão do Pai, na dependência, no abandono, na confiança de que Ele, sim, sabe para onde nos levar e para onde devemos ir.

Que o amor poderoso de Deus nos conduza nas nossas descobertas, mova todas as nossas virtudes e nos faça pessoas maduras para juntos alcançarmos o céu.

Fernanda Guardia da Silva
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator 

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