No egoísmo sempre falta algo. Nenhuma coisa basta

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egoísmo

O relato da criação do homem e da mulher nos revela quão generoso é Deus (cf. Gênesis 1,26-27). Ele quis compartilhar conosco Sua vida ao nos criar à Sua imagem e semelhança, capazes de nos relacionar com Ele, de sermos, tanto quanto nos permite nossa humanidade, tal qual Ele é. Sendo assim, por que, tantas vezes, ao invés de nos darmos também em generosidade, somos aprisionados pelo egoísmo?

É próprio do amor dar-se sem medidas, entregar-se sem reservas. Sendo o amor a essência de Deus, podemos concluir que a todo instante Deus Se dá a nós, nos gerando e sustentando nossas vidas. Sem a generosidade de Deus deixaríamos de existir, ou melhor, seríamos aniquilados, pois não somos capazes de nos manter vivos por um milésimo de segundo sequer.

Nossa alegria, da mesma forma, deveria estar no dar-se, na entrega de nossas vidas principalmente por aqueles nos são mais próximos, porque, afinal, “Deus nos colocou no mundo para os outros” (Dom Bosco). Assim como Deus partilhou e partilha a cada instante Sua vida conosco, deveríamos ter o mesmo movimento, pois, como sabemos, fomos criados à Sua imagem e semelhança.

Contudo, influenciados que somos pela marca do pecado original, temos a infeliz tendência de reter, de nos preservar, guardar e acumular excessivamente até mesmo os bens materiais porque temos medo, ainda que de forma sutil e velada, de ser lesados ou de que algo venha a nos faltar. Ao contrário do que muitos possam assegurar, isso não é prudência, mas egoísmo.

São João Paulo II, em suas Catequeses sobre Teologia do Corpo, nos ensina que o contrário do amor, diferente do que podemos pensar, não é o ódio; é o controle. Aquele que não ama, ao invés de dar-se aos outros, de ser um dom, controla, com suas medidas baixas e egoístas.

Entenda que o amor não nos leva a ser homens e mulheres descontrolados, mas a sermos, tanto quanto podemos, generosos, sem querer dominar os outros em busca de nossa própria satisfação.

Egoísmo, fonte de tristeza

Enquanto as pessoas generosas são satisfeitas com o que tem e se sentem alegres por poderem compartilhar suas vidas e bens, as pessoas egoístas sentem-se sempre insatisfeitas e tristes, por viverem numa busca interminável de conquistarem sempre mais. No egoísmo sempre falta algo; nada basta.

A realização mais profunda do nosso ser não está em conquistar, mas em ofertar. Conquistar, é claro, é algo bom e lícito, mas a alegria maior está em dar.

“Porque há maior alegria em dar do que em receber” (Atos dos Apóstolos 20,35)

No primeiro livro de Reis, nos é relatado o encontro de Elias com a viúva de Sarepta. Esta mulher encontrava-se, junto a seu filho, em uma situação profunda de miséria: “tinha apenas punhado de farinha na panela e um pouco de óleo na ânfora” (I Reis 17,12), que seriam usados para preparar um último pedaço de pão que comeriam antes de morrer de fome.

Elias, de forma muito ousada, convidou aquela mulher à generosidade. Ela tinha motivos justos para não partilhar com ele de seu pão, mas, confiando na providência de Deus, escolheu não trilhar o caminho que beirava o egoísmo. Vejamos o relato:

Disse Elias à mulher: “Não temas; volta e faze como disseste; mas prepara-me antes com isso um pãozinho, e traze-mo; depois prepararás o resto para ti e teu filho. Porque eis o que diz o Senhor, Deus de Israel: a farinha que está na panela não se acabará, e a ânfora de azeite não se esvaziará, até o dia em que o Senhor fizer chover sobre a face da terra. A mulher foi e fez o que disse Elias. Durante muito tempo ela teve o que comer, e a sua casa, e Elias. A farinha não se acabou na panela nem se esgotou o óleo da ânfora, como o Senhor o tinha dito pela boca de Elias” (I Reis 17,13-16).

Esta viúva fez a experiência da generosidade e colheu a bênção de abundância em sua casa. Nada faltou a ela, ao seu filho e a Elias.

Se a generosidade atrai bênçãos, o que pode atrair até nós o egoísmo?

Se aquela mulher não tivesse partilhado do pouco que tinha, muito provavelmente aconteceria o que ela mesma havia previsto: ela e o filho comeriam o que restava na despensa e depois morreriam de fome.

Tenhamos também nós a coragem de sair do egoísmo para a generosidade, e provaremos que não faltará farinha em nossas panelas nem óleo em nossas ânforas. Além do mais, longe de nos sentirmos insatisfeitos por aquilo que não temos, experimentaremos a alegria própria daqueles que ofertam, confiantes na bondade do Pai que conhece todas as nossas necessidades (cf. Mateus 6,32).

Edvandro Pinto
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator

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