O Senhor nos encontra no deserto

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A imagem do deserto não costuma ser algo agradável. Eu, pelo menos, costumo imaginar um local quente, isolado, repleto de areia e com ausência de água. Não parece ser um ambiente refrescante e de descanso. Ao contrário, o deserto remete a algo duro, difícil, onde a pessoa precisa lutar pela sua própria sobrevivência.

Mas não se engane: não é preciso viajar para o norte da África ou para o Oriente Médio para se deparar com um deserto. Muitas vezes este deserto está dentro de nós, se manifestando em nossa vida espiritual ou mesmo nos desafios cotidianos. Afinal, quem nunca se sentiu vivendo sozinho e sem qualquer refresco? Quem nunca se viu lutando bravamente contra um ambiente difícil?

Porém, e por mais difícil que seja reconhecer, nós precisamos do deserto – pois é nele que muitas vezes encontramos a nossa própria verdade. Note o seguinte: ninguém gosta de sentir fome, dor ou frio. Porém, estas sensações são extremamente necessárias, pois nos revelam coisas importantes. A fome é um lembrete de que o seu corpo precisa de nutrientes. A dor é um alerta de que há alguma coisa errada com o organismo. O frio demonstra que a temperatura externa está baixa demais, podendo prejudicar a circulação.

Usando o mesmo raciocínio, podemos dizer com segurança que o deserto – apesar de bastante desagradável – é algo que nos faz perceber a nossa fraqueza. O deserto é um lembrete de que não sobrevivemos sozinhos; de que precisamos de Alguém para nos conduzir e nos refrescar.

DEUS PARECE GOSTAR DO DESERTO

Em outras palavras, o deserto serve para nos lembrar de que temos necessidade de Deus. E é muitas vezes neste ambiente que podemos encontrá-Lo com maior facilidade. Ou melhor: que podemos ser encontrados por Ele. É isso o que nos recorda as Escrituras: “Ele encontra Seu povo no deserto, nas solidões repletas de urros selvagens. Ele o envolve, o instrui, vela sobre ele como a pupila de seus olhos” (Dt 32, 10).

É preciso entendermos uma coisa: o deserto não existia nos planos originais de Deus. Tudo era alegria, saciedade, refresco. O deserto é consequência das desordens provocadas pelo pecado. Porém, temos um Deus absolutamente criativo. Temos um Deus Poderoso que possui a capacidade de transformar algo “ruim” em algo santo. Como nos lembra o Apóstolo, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20).

Em várias outras passagens Deus parece sugerir que utiliza o deserto como “estratégia”. É bastante fácil de entender: o Senhor quer nos atrair a Ele; então, Ele nos permite entrar em um deserto escaldante; este deserto produz uma certa “sede” em nossa alma, e aí, o próprio Deus nos apresenta a sua enorme e maravilhosa fonte de água viva. Ou seja, é no deserto que o Senhor consegue nos atrair com maior eficácia.

OS NOSSOS DESERTOS SÃO VERDADEIROS “CONVITES”

É possível que você, meu atento leitor, esteja passando por um destes momentos desérticos – ou ao menos já tenha passado anteriormente. As razões podem ser inúmeras: uma séria dificuldade financeira; um vício que está te destruindo; uma depressão que suga sua vontade de dar passos… mas o que você precisa saber hoje (e isso é muito importante!) é o seguinte: independentemente da situação que você esteja vivendo, o Senhor quer saciar sua “sede” interior.

É justamente isso que Ele faz. Conforme nos relata Davi, naquele salmo esplêndido: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará. Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura as forças de minha alma” (Sl 22, 1-3).

O deserto pode sim ser um lugar de sofrimento e de cansaço. Mas pode ser também um lugar de encontro e de vitória. Muitas vezes, nós precisamos passar pela purificação do deserto para, somente então, saborear as delícias do jardim. Perceba que o povo de Deus, no Antigo Testamento, passou 40 anos no deserto antes de entrar na famosa “terra prometida”.

Moisés encontrou a sarça ardente enquanto pastoreava as ovelhas no deserto. O próprio Cristo, antes de iniciar sua missão pública, precisou passar 40 dias em que lugar? Sim, no deserto! É curioso pensar que o Pai poderia escolher qualquer lugar do mundo para mandar o seu Primogênito: poderia ser em um lugar frio e charmoso, como Londres; ou em um lugar tradicional e famoso, como Roma. Mas Ele escolheu justamente um lugar em que pudesse haver um deserto…

DEUS SOMENTE QUER CUIDAR DE NÓS

Não estou dizendo, evidentemente, que você precise procurar com urgência algum deserto para se lançar. (Acredito que a propaganda não tenha sido tão eficiente a este ponto…). A própria Providência Divina sabe quais são os desertos de que temos necessidade. Muitas vezes, o sofrimento vivido por um conhecido (e que pode santificá-lo) não fosse algo proveitoso à minha alma.

Quero dizer que a própria vivência já nos oferece os desertos, com ou sem nosso consentimento. O fato é que todos os “desertos” só ocorrem por permissão de Deus. Não há nenhum sofrimento na minha ou na sua vida que tenha “escapado” por um momento de desatenção do Pai ou algo do tipo.

E se estamos vivendo um deserto permitido por Deus, é porque nos enquadramos em uma destas duas realidades: 1ª: estamos em estado de pecado, e Deus quer nos resgatar urgentemente. Ele é capaz de permitir mil desertos, se for para garantir a salvação da nossa alma.

2ª realidade: estamos em estado de Graça, e Deus quer nos fazer crescer ainda mais em santidade. Espero que este seja o seu caso, querido irmão. Se for, tenho apenas um conselho: reze pedindo a Deus que Ele te conceda o refresco da água viva – que é a força do Espírito Santo. Se você souber utilizar bem este deserto, garanto que Deus te conduzirá rapidamente à “terra prometida”.

O Deus Poderoso pode usar de tudo para fazer o bem, até mesmo os ambientes mais secos e desafiadores. Que a Virgem Santíssima nos ensine a, assim como ela, guardar todas as coisas no coração e aproveitar dos desertos que Deus nos permite.

Rafael Aguilar Libório
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator

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