Se uma alma busca a Deus, muito mais Deus a busca

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“Se uma alma busca a Deus, muito mais Deus a busca.” Esta é uma verdade proclamada por São João da Cruz, frei carmelita do século XVI, que se tornou Doutor da Igreja. Em vida, esse homem estava longe de reconhecimentos e méritos, ao contrário, enfrentou grandes perseguições, prisão e até mesmo açoites, pela causa do Reino de Deus.

Viveu tudo isso com amor, selando, de maneira concreta, o legado de ensinamentos que nos deixou. Aliás, ele mesmo pediu a Deus que pudesse morrer desprezado e esquecido.

A Sabedoria Divina fez com que “por um acaso” se cruzassem os caminhos dos “inquietos”, João da Cruz e Teresa d’Ávila, que se tornaram grandes amigos e reformadores do Carmelo (masculino e feminino).

“SE UMA ALMA BUSCA A DEUS…”

Para que uma alma busque a Deus, primeiramente existe a iniciativa do próprio Deus, que de alguma forma lhe atrai.

Existe a alma que O busca porque foi por Ele seduzida. Por outro lado, existe a alma que ainda não experimentou o Seu Amor, mas reconhece que tem necessidade d´Ele. É o caso de muitos ateus que, assumidamente ou não, “perseguem” a presença de Deus, guardam em seu íntimo o desejo de uma experiência que lhes conquiste e lhes “arraste” à Fé.

O que é uma alma perto de Deus? Jesus nos mostra em Jo 15,5: “Eu sou a videira; Vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer”. Somente Deus existe por Si mesmo. Nós somos subsistentes n’Ele e fora d´Ele, “ressecamos”. Somos necessitados da “seiva da vida”.

Além disso, possuímos um “abismo” em nosso ser, que chamamos de “NADA”, que só o “TUDO” (Deus), é capaz de preencher.

Nesse sentido, João da Cruz disse: “O ferido de amor não se cura, a não ser com amor”. Podemos observar esse fato em nossas vidas: não há nada neste mundo que nos sacie plenamente como a verdadeira relação com o Deus de Amor! Sem isto, somos inquietos e incompletos, necessitados de algo que “anestesie” a falta de paz. E geralmente esses “anestésicos” (prazeres da vida), além de não saciar, provocam vícios na alma.

Ainda neste sentido, São João da Cruz nos fala: “A mosca que pousa no mel não pode voar; a alma que fica presa ao sabor do prazer sente-se impedida em sua liberdade e contemplação”.

E ainda: “A pessoa que está presa por afeto a alguma coisa, mesmo que pequeno, não alcançará a união com Deus, mesmo que tenha muitas virtudes. Pouco importa se o passarinho está preso com um fio grosso ou fino, ele ficará sempre preso e não poderá voar”.

Para aqueles que tomam consciência da importância de permanecermos sempre em Deus, São João da Cruz propõe uma busca de purificação.

NOITE ESCURA – EM BUSCA DO AMADO

Nossa alma é comparada a um prisioneiro dentro do corpo. E as “janelas desta prisão”, que nos dão acesso ao mundo, são os sentidos. Temos os sentidos externos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Também temos os sentidos internos: afetividade, memória, imaginação. E as faculdades espirituais: razão e vontade. É natural que tenhamos apegos em cada um desses sentidos. Até mesmo as coisas de Deus – trabalhos que realizamos em Seu nome ou sentimentos que temos em nossa relação com Ele – podem nos representar apegos. Sem perceber, em nossos corações, podemos colocar essas coisas acima do próprio Deus, daí a necessidade de reordenar nossos afetos.

São João da Cruz chama de “noite escura” o processo de purificação, baseado nas renúncias daquilo que nos afasta de Deus. O nome “noite” se dá pelo fato de que, ao “se fecharem as janelas dos sentidos”, a alma permanece na obscuridade.

Esse processo pode se dar de maneira “ativa”: quando a própria pessoa se dispõe a viver desapegos para mergulhar numa maior relação com Deus; ou de maneira “passiva”: quando os fatos da vida impõem certas privações.

De qualquer forma, além da confiança, João nos ensina a ter paciência e perseverança para enfrentar esse momento, pois mesmo se nos sentirmos “abandonados”, é fato que Deus está o tempo todo junto a nós. O próprio sentimento de abandono, citado como exemplo, faz parte da “noite escura”, e foi também experimentado por Cristo na Cruz. Podemos viver isso nos sentidos, mas devemos conservar a Verdade em nossa Razão: Ele está conosco, e logo, “ao raiar o dia”, O veremos novamente! Estamos em processo de purificação do apego a Seus Consolos!

“Para vires a saborear TUDO, não queiras ter gosto em NADA” – São João da Cruz

“…MUITO MAIS DEUS BUSCA A ELA

Temos que fazer o nosso melhor para ordenar nossos afetos. Esse movimento ATRAI o OLHAR e o AUXÍLIO de Deus que nos IMPULSIONA, realizando obras que só Ele é capaz de fazer! Se nós não suportamos estar longe de Deus, quem dirá Ele, Nosso Pai! Ele, que nos sonhou tal como somos, faz questão de nos ajudar a permanecermos em Seu Amor!

 Quando o nosso querer se conforma ao querer de Deus, é sinal que esta purificação tem surtido efeito. Isto significa que nossa alma está unida a Ele, porque quem ama “se conforma ao ser amado”.

O objetivo desta busca de desapego não é um simples renunciar, ou um simples sofrer, e sim, ordenar os afetos. Ter sempre Deus como nosso Soberano. Todo esse processo nos torna “senhores” de nós mesmos e livres!

“Quando a alma se acha livre e purificada de tudo, em união com Deus, nenhuma coisa poderá aborrecê-la. Daqui se origina para ela, neste estado, o gozo de uma contínua vida e tranquilidade que ela nunca perde nem jamais lhe falta.” (São João da Cruz)

Você está disposto(a) a adentrar a noite em busca do Amado? Uma coisa lhe digo: “É TUDO ou NADA”!

Luiza Torres
Discipula da Comunidade Católica Pantokrator

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