Todos somos réus do pecado

0
réus

Você talvez já tenha ouvido, por alguns milhões de vezes, que “Jesus é o nosso Salvador”. Porém, você entende realmente o que isso quer dizer? Ele nos salvou do quê? A verdade é que nos esquecemos muito facilmente de que nós adquirimos uma dívida impagável, de modo que a nossa condenação era certa e justa. Em outras palavras, somos réus das graves ofensas que praticamos contra Deus.

Vamos entender um pouco melhor. Se você acordar de mau-humor e resolver socar o seu vizinho, você terá praticado uma ofensa considerável, e precisará reparar isto de algum modo, certo? Porém, se você socar com a mesma força um Delegado ou um Juiz, sua situação será muitíssimo pior, e a reparação se tornará mais difícil. Imagine então que você dê um soco no presidente dos Estados Unidos! Bom… já deu para perceber que existe uma relação direta entre o tamanho da ofensa e o grau de importância da pessoa ofendida (ainda que o soco seja o mesmo). O nosso grande problema é que ofendemos a mais alta personalidade que possa existir: ofendemos o próprio Deus!

Aqui nós precisamos voltar à primeira e mais importante ofensa, aquela que chamamos de “Pecado Original”. O grave erro de Adão e Eva, nossos primeiros pais, ocasionou simultaneamente dois problemas imensos: o primeiro, é que nós adquirimos aquela dívida impagável que falei lá atrás; e o segundo, é o fato de que este Pecado Original desordenou completamente toda a criação, incluindo nós mesmos. Desde então, nós estamos “bagunçados” por dentro, confundindo valores, abraçando o que é mau e rejeitando o que é bom. Essa “bagunça”, que nos atrapalha enormemente na busca pela santidade, é chamada pela teologia de “concupiscência”. Ou seja, a grave ofensa dos nossos primeiros pais (que continuamos repetindo até hoje) nos conseguiu uma dívida e uma desordem interior.

A “LOUCA” SOLUÇÃO DE DEUS

O nosso caso era sério… Como a ofensa havia sido praticada por um ser-humano, somente outro ser-humano poderia pagá-la. Todavia, como havia sido feita contra o próprio Deus do universo, a única pessoa digna de quitar a dívida seria alguém do mesmo “nível” – ou seja, o próprio Deus. Dizendo de outra maneira, a dívida somente poderia ser paga por alguém que fosse, ao mesmo tempo, um ser-humano e um Deus. E aqui entra o maior de todos os milagres: JESUS CRISTO, que possui as duas naturezas em si mesmo!

Lá no Antigo Testamento, o povo costumava fazer um sacrifício simbólico: escolhia, dentre o rebanho, um cordeiro sem defeitos e o imolava em um altar, diante de Deus. Com isso, queriam dizer: “Senhor, nós merecemos a morte por causa dos nossos pecados. Mas faça recair as nossas culpas sobre este pobre animal”. Apesar da boa vontade do povo, este gesto não passava de um símbolo.

Com Jesus Cristo a situação se tornou real. Não é à toa que São João Batista o chama de “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Jesus é o Cordeiro “sem defeitos” (isto é, sem pecados). Ele se ofereceu para ser sacrificado e assumir todas as culpas em nosso lugar. Se no Velho Testamento o altar era de pedra, agora o verdadeiro altar é de madeira – a preciosa cruz. A partir do sacrifício livre do Homem-Deus, nós podemos finalmente nos considerar livres daquela antiga dívida impagável. É exatamente por isso que nós dizemos que “Jesus é o nosso Salvador”!

MAS A CONCUPISCÊNCIA CONTINUA…

Eu havia dito que o Pecado Original causou dois problemas: a dívida e a concupiscência. Com o sacrifício sagrado de Jesus (que é atualizado em todas as Missas), nós conquistamos o perdão em relação ao primeiro ponto. Entretanto, por um mistério que somente Deus poderá esclarecer um dia, Ele não quis destruir aquela desordem causada pelo pecado. Isto significa que continuamos tendo aquela inclinação má, aquela “bagunça interior”.

De certa maneira, não é inteiramente ruim o fato de nós ainda termos esta “inclinação ao mal”. Isto porque agora nós temos uma grande oportunidade de provar o nosso amor a Deus. É preciso que isto fique bem claro: o fato de nós termos uma tendência ao mal não significa, de maneira alguma, que nós devemos ser escravos do pecado. Ao mesmo tempo em que Deus permite a concupiscência, Ele também nos enche de armas para combater o mal e aderir à salvação que vem da cruz.

A consciência de que todos temos esta inclinação ruim deve nos conduzir, imediatamente, à misericórdia. Lembremo-nos daquele famoso episódio narrado no Evangelho de São João (Jo 8,1-11), em que vários acusadores pegam em pedras para matar a mulher adúltera. Jesus intervém com uma única frase: “Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”. Diferentemente do que muitos interpretam, Jesus não está ignorando o pecado – já que, em seguida, ele manda a mulher não voltar a esta vida. O que Jesus faz é, justamente, convidar os fariseus a refletirem que eles próprios possuem uma inclinação ao mal. Ninguém neste mundo, nem mesmo os santos – com a exceção do Cristo e da sua Mãe Santíssima – estiveram livres dos efeitos da concupiscência.

O REMÉDIO INFALÍVEL: A SANTIDADE

Este texto não possui a intenção de justificar os pecados e nem de “reconhecer a derrota”. Muitíssimo pelo contrário: é preciso que nós reconheçamos a desordem que existe em nós, mas que também tenhamos a consciência de que é plenamente possível vencer qualquer concupiscência. São Paulo nos recorda que, apesar de todas as dificuldades e inimigos que aparecerem, “(…) em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou” (Rm 8,37). Escolhendo a Cristo, estamos escolhendo o lado vencedor. Nada e ninguém é maior que o nosso Deus!

Esta mesma concupiscência que quer nos arrastar para o pecado, pode ser transformada (pela fé e pela Graça) em uma escada que nos leva até Deus. Sim, porque a verdadeira luta contra o pecado nos conduz a um efetivo crescimento espiritual. Este foi o caminho trilhado por todos os santos: eles reconheciam a própria fraqueza e a incapacidade que tinham de ser bons sozinhos. Contudo, se armaram com as virtudes e os dons dados por Deus e se tornaram verdadeiros heróis da causa cristã.

Também nós somos chamados hoje a esta reflexão. Uma coisa é certa: eu e você possuímos uma inclinação má, que é efeito do Pecado Original. A questão é: o que faremos com esta concupiscência? Entregaremos os pontos e desistiremos da luta? Ou nos agarraremos ao Cordeiro e lutaremos até o céu? Eu, particularmente, prefiro escolher o lado vencedor – o lado de Deus.

Que o Senhor nos abençoe sempre!

Rafael Aguilar Libório
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator

Deixe uma resposta

Por favor, insira seu comentário!
Por favor, insira seu nome aqui.