A Santíssima Trindade: mistério de Amor

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Certa vez, um mestre espiritual disse que “o Cristianismo não é uma filosofia, nem mesmo uma doutrina, o Cristianismo é vida! Ou se vive ou não se sabe o que é…”. Essa expressão ganha ainda mais sentido quando nos deparamos com o mistério central da nossa fé, o dado mais complexo da Revelação: a Santíssima Trindade.

Deus é amor (cf. 1Jo 4, 8). Isso nos introduz no mistério de que Deus é eternamente Pai de um Filho que existe eternamente e o amor entre os dois é o Espírito Santo, que é eterno. E isso não é fruto de fantasia ou invenção humana. Nós descobrimos isso, porque Deus mesmo Se revelou assim e, ao Se revelar, salvou-nos, enviando ao mundo o Seu Filho e o Espírito Santo. Então, soubemos que Ele é Trino. Ele Se revelou. Revelar é tirar e colocar o véu. Mas nós não temos a visão de Deus aqui. Deus Se revelou, mas permanece envolvido em mistério porque não cabe em nossa inteligência. Na Encarnação do Verbo, foi revelado o mistério da Santíssima Trindade.

A Santíssima Trindade: mistério de AmorNo Antigo Testamento, houve um pequeno sinal, quando aqueles três anjos apareceram a Abraão no carvalho de Mambré para anunciar a gravidez de Sara (cf. Gn 18,1-10). No Novo Testamento, a Santíssima Trindade aparece já no Batismo de Jesus, quando o céu se rasgou, e o Espírito Santo desceu como pomba e então o Pai fala: “Eis Meu Filho muito amado, em quem ponho minha afeição” (cf. Mt 3,13-17). Também na Transfiguração, não é só o Homem Jesus, mas a glória da Pessoa divina de Cristo que se manifesta. E o Pai novamente fala. E o Espírito Santo está ali, na nuvem que envolve aquela manifestação divina (cf. Mc 9,2-8). Temos as três pessoas divinas.

Em Mt 28,19, Jesus define a fórmula do Batismo, trinitária, que renovamos a cada oração, com o sinal da Cruz. A Igreja começa já marcada pela Trindade. Uma natureza, Três Pessoas. A natureza é divina. Um só Deus em Três Pessoas. Deus é uno, único, um só Deus! Mas não é sozinho. É Trindade de amor.

A Primeira Pessoa chama-se Pai-Ingênito ou inascível, Princípio sem princípio, porque gera a Segunda Pessoa, que é seu Filho por natureza, desde toda a eternidade. A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade chama-se Filho, por ser gerado pelo Pai e possuir a natureza divina do Pai; chama-se também Verbo, isto é, palavra de Deus, porque, assim como o verbo ou palavra é fruto do entendimento humano, assim o Verbo é fruto do entendimento do Pai; Ele é também imagem do Pai (cf. Cl 1, 15; 2Cor 4, 4; Hb 1, 3; Jo 1, 18); nesse contexto, imagem significa revelação, expressão da substância de Deus. Foi essa Segunda Pessoa que Se encarnou no ventre da Virgem Maria por obra do Espírito Santo: Jesus Cristo é o Filho encarnado. A Terceira Pessoa chama-se Espírito Santo, que significa expiração ou impulso de amor, porque procede do Pai e do Filho por via de vontade e de amor. Acrescenta-se “Santo” porque a Ele se atribui de modo especial a santidade; chama-se também Amor (cf. Rm5, 5); Ele é o amor entre o Pai e o Filho; é Dom, pois amor é essencialmente dom.

O “três” é um número exemplar, pois o número “um” é isolado; o “dois” é divisível; porém, o “três” é indivisível, é comunidade. Nessa comunidade, explica Santo Agostinho, “o Pai é o que ama; o Filho é o Amado; e o Espírito Santo é o Amor”.

Deus é Trindade de Amor

Deus é Trindade porque é amor. E porque é amor, Deus é felicidade, “a felicidade que nos torna felizes”, como diz Santo Agostinho. A perfeição divina não se vive no modo de fechamento e isolamento, mas na doação, no amor.

O Amor em Deus é a capacidade de sair de si; é a capacidade infinita de amar. Ele Se compadece do nosso sofrimento. Aí está a perfeição de Deus: na capacidade infinita de amar, a compaixão. Nosso Deus não é insensível aos destinos do mundo.

Deus nos salva para que tenhamos relação com Ele e participemos da Sua vida. A vida eterna está no conhecimento de Deus: “que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro” (Jo 17,3). A finalidade última do homem está na glorificação do Deus Uno e Trino e em ser acolhido na vida plena da Santíssima Trindade.

A Trindade é o lugar de nosso repouso, de nossas delícias, que nos sacia plenamente.

Sendo a Santíssima Trindade uma comunhão de amor, Ela criou o homem à Sua imagem, isto é, como ser de relação. Deus nos criou para participarmos de Sua comunhão trinitária, que se dá no amor mútuo, na entrega recíproca.

O mistério trinitário não é o resultado de um pensamento humano nem uma crença que resultou de uma seita ou de um entendimento filosófico, mas é a essência da anunciação dos próprios Apóstolos, os quais viveram e ensinaram na experiência vivenciada da participação da vida divina: “O que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos para que estejais também em comunhão conosco” (1Jo 1,3).

Não devemos nos cansar de perscrutar Seu mistério, ainda que ele supere infinitamente nossas capacidades. Um dia, a sondagem irá cessar, e descobriremos que o ponto que atingimos é também berço de onde nascemos, mas só então o reconheceremos.

Kátia Maria Bouez Azzi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator, Teóloga e Filósofa

2 COMENTÁRIOS

  1. […] Quando tomamos posse desta verdade entendemos que não precisamos contar tanto com as nossas forças e com as nossas capacidades, mas que devemos esperar n’Ele. Passamos a compreender que não importa o que nos aconteça – independente das angústias e tribulações – Deus permanece conosco na caminhada desta vida e deseja o céu a nós, deseja que sejamos consumidos na contínua experiência de amor que transborda da Trindade Santa! […]

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