O que fazer com os meus desejos?

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desejos

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Quando falamos de desejos, de forma particular no meio cristão, é muito comum pensarmos em nossas desordens interiores, na tendência que há em nós para o pecado. Contudo, não necessariamente os desejos estão sempre relacionados com o que há de mal em nós. 

Christopher West, em seu livro “Enchei estes corações”, define desejo como “um anseio sentido por algo que promete preencher um vazio; uma aspiração por que promete satisfação mediante obtenção. Do latim  desiderare: ansiar, desejar, esperar, ter expectativa”.

Ao refletirmos com sinceridade sobre os maiores desejos que todos nós possuímos, chegaremos à conclusão de que o que mais queremos é a felicidade. Todos os nossos esforços, lutas e buscas têm como meta nossa realização interior. 

“Todos nós, sem dúvida, queremos viver felizes, e não há entre os homens quem não dê o seu assentimento a esta afirmação, mesmo antes de ela ser plenamente enunciada” (Santo Agostinho).

A este respeito, nos afirma o Catecismo da Igreja Católica:

“O desejo de Deus é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus. Deus não cessa de atrair o homem para Si e só em Deus é que o homem encontra a verdade e a felicidade que procura sem descanso” (§ 27).

“As bem-aventuranças respondem ao desejo natural de felicidade. Este desejo é de origem divina: Deus o colocou no coração do homem, a fim de atraí-lo a si, pois só ele pode satisfazê-lo” (§ 1718).

Podemos, então, compreender que a origem do desejo que temos em nós é Deus. Sendo assim, o desejo é algo bom, pois tudo o que Deus criou é bom, Ele é bondade (cf. Gênesis 1, 31 e Salmo 33, 8). Deus colocou o desejo em nós como uma força, potência, aspiração, vontade que nos direciona para Ele. 

Por qual motivo, podemos nos perguntar? Simplesmente pelo fato de Ele e somente Ele ser a fonte de felicidade que nos satisfaz, como nos ensina Papa Francisco: “Nenhum esforço, nenhuma revolução pode satisfazer o coração do homem. Somente Deus, que nos fez com um desejo infinito, pode preenchê-lo com sua presença infinita; por isso Ele se fez homem: para que os homens possam encontrar Aquele que salva e realiza o desejo de dias felizes” (mensagem do Papa ao Meeting de Rimini 2018 (Itália)).

Se o desejo tem origem divina e, portanto, é algo bom, por qual motivo, muitas vezes, experimentamos em nossa carne desejos que nos conduzem ao pecado? 

  • 1707 “Instigado pelo Maligno, desde o início da história o homem abusou da própria liberdade.” Sucumbiu à tentação e praticou o mal. Conserva o desejo do bem, mas sua natureza traz a ferida do pecado original. Tornou-se inclinado ao mal e sujeito ao erro: O homem está dividido em si mesmo. Por esta razão, toda a vida humana, individual e coletiva, apresenta-se como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas”.

Marcados pelo pecado original, trazemos ainda em nós o desejo de felicidade, porém, nossa visão está obscurecida e, com muita facilidade, tendemos a errar o alvo que é Deus, pois existem outras tantas ofertas de felicidade à nossa disposição. O que não podemos nos esquecer é que somente em Deus podemos ser saciados. Todas as outras “felicidades”, por melhores que sejam, não são capazes de nos preencher e, se estiverem fora do plano de Deus, nos frustram e só aumentam em nós a sede que temos.

Nossos desejos foram desordenados pelo pecado. Ao invés de sermos direcionados para Deus, somos direcionados para nós mesmos, na busca de nos saciarmos naquilo que julgamos ser bom. Este movimento nos faz buscar nas pessoas, nos bens materiais e, até mesmo, em ideologias o bem que não possuem. O que nos domina não é mais o anseio que nos leva a Deus, mas os desejos da carne. 

Segundo São Paulo, na Carta aos Gálatas (5, 19-20), muitos são os desejos da carne, e todos nós, por experiência própria, sabemos que nenhuma dessas coisas nos traz felicidade, mas nos distanciam de Deus e do próximo. Apesar disso, como somos constantemente tentados a praticar tais obras! Mesmo querendo fazer o bem, tantas vezes nos vemos praticando o mal (cf. Romanos 7, 19).

A redenção do desejo

O que fazer? Reprimir nossos desejos? Aceitar que somos assim mesmo e viver de acordo com nossa desordem? Nenhuma dessas opções corresponde ao que precisamos.

“…todos e cada um de nós têm necessidade de uma “reorientação” sexual [dos desejos] de acordo com o plano original de Deus ao nos criar homem e mulher… a solução é render os nossos desejos desordenados a Cristo e deixar que Ele nos transforme” (Christopher West, Teologia do Corpo para iniciantes).

É em Cristo, o verdadeiro Homem, por Sua morte e ressurreição, que nossos desejos podem ser novamente direcionados para Deus. Se pelo pecado ficamos com nossa visão turva, pela luz de Cristo voltamos a enxergar e temos a possibilidade de olhar para o céu, nosso destino, para Deus e canalizar nossos desejos para o amor.

Bento XVI, ao falar sobre o desejo de Deus, nos convida a “…não nos deixarmos desencorajar pela fadiga ou pelos obstáculos que provêm do nosso pecado. A este propósito não devemos esquecer contudo que o dinamismo do desejo está sempre aberto à redenção. Também quando ele se adentra por caminhos desviados, quando persegue paraísos artificiais e parece perder a capacidade de ansiar pelo bem verdadeiro. Também no abismo do pecado não se apaga no homem aquela centelha que lhe permite reconhecer o verdadeiro bem, saboreá-lo, e assim iniciar um percurso de subida, no qual Deus, com o dom da sua graça, nunca deixa faltar a sua ajuda. De resto, todos temos necessidade de percorrer um caminho de purificação e de cura do desejo. Somos peregrinos rumo à pátria celeste, rumo àquele bem pleno, eterno, que nada jamais nos poderá extirpar. Por conseguinte, não se trata de sufocar o desejo que se encontra no coração do homem, mas de o libertar, para que possa alcançar a sua verdadeira altura” (Audiência Geral, 7 de novembro de 2012).

O segredo é permitir que Cristo purifique e cure nossos desejos, a fim de empregarmos todas as nossas forças na busca de nossa união eterna com Deus, pois reprimir, ignorar ou rejeitar não soluciona nosso drama, pois essa força chamada desejo continua a atuar em nós, ainda que não queiramos.

Neste sentido, aos pés da Cruz do Senhor, de onde jorra a redenção para nós, podemos clamar o dom inesgotável da graça que nos liberta do pecado e nos direciona novamente para Deus.

A virtude moral da temperança, dom do Santo Espírito, de acordo com o CIC, “modera a atração dos prazeres e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos nos limites da honestidade” (§1809). Permitamos, então, que nossos desejos sejam redimidos, voltem a nos impulsionar para a fonte de felicidade eterna que tanto buscamos. Unidos a Maria Santíssima, direcionemos a Deus nossos anseios, para que sejamos plenamente saciados.

Edvandro Pinto
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator

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