Calvário: Reflexão ou medo?

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Calvário

Algumas palavras são consideradas uma espécie de “gatilho”, de modo que a sua simples pronúncia é capaz de evocar os mais diversos sentimentos. Por exemplo, pense na palavra CALVÁRIO: é provável que venha à sua mente uma cruz, soldados com lanças, mulheres chorando, sangue derramado e muito, muito sofrimento. De fato, é difícil pensar em calvário e associar a coisas como empolgação, festa ou risos.

 Entretanto, uma coisa precisa ficar muito clara para todos nós, cristãos: o calvário não foi uma “fatalidade” na vida de Jesus; não foi algo que ele tentou evitar, mas não conseguiu. Ao contrário: o calvário foi escolha do próprio Deus! Jesus Cristo ressalta esta realidade de maneira claríssima no Evangelho: “É por isso que o Pai me ama: porque dou a minha vida. E assim, eu a recebo de novo. Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade” (Jo 10, 17-18).

Quando o mundo pensa em um “Ser Poderoso”, imagina alguém grande, com uma coroa de ouro, se vestindo com um manto cravejado de diamantes e com milhares de soldados o servindo. Aí vem o cristianismo e apresenta o extremo oposto: o Rei dos reis é mostrado como um homem pregado em uma cruz, com uma coroa de espinhos, sem discípulos aos seus pés (pois quase todos fugiram de medo) e “vestido” com cicatrizes e chagas por todo o corpo.

Não é à toa que São Paulo escreve: “Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (I Cor 1, 23).

A Religião dos paradoxos 

Segundo o dicionário, a palavra “paradoxo” significa uma aparente falta de nexo ou de lógica, mas que não necessariamente significa uma contradição. É algo que orienta para o sentido contrário daquilo que geralmente se pensa. Um exemplo clássico é o famoso poema de Luís Vaz de Camões: “O amor é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer”

Pois Deus parece ser um grande fã dos paradoxos, uma vez que toda a Sagrada Escritura está cheia deles. São Paulo nos diz: “Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte” (II Cor 12, 10). Já o Cristo, nos adverte: “Muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros” (Mt 19, 30).

E não cessa por aqui: Em certo momento, Jesus louva ao Pai porque Ele escondeu as certas coisas dos sábios e as revelou aos pequenos (Mt 11, 25). Em outro ele diz que quem quer ser o maior, deve se tornar o menor (Lc 22, 26). Todo o Sermão da Montanha é um conjunto fabuloso de paradoxos, na medida em que Jesus afirma que são felizes os que choram e os que são perseguidos (capítulo 5 de Mt).

A lista seria interminável. Porém, é suficiente que eu destaque o maior e o mais lindo de todos os paradoxos: o próprio calvário. Sim, o calvário era sinônimo de vergonha, e Cristo o transformou em sinal de obediência. Os criminosos mais desprezíveis eram pregados na cruz, e o Deus sem pecados aceitou esta condição. Aquilo que para o mundo e para os demônios era símbolo do fracasso (o Messias morrendo na cruz!), Deus transformou em fonte de salvação para todos!

Portanto, a palavra CALVÁRIO não deveria nos soar como uma tragédia ou um sofrimento sem sentido. Deveria despertar em nós um sentimento de amor, de gratidão e de fidelidade. Pois, como lembra o Apóstolo: “A loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (I Cor 1, 25).

O Calvário não deve ser admirado; deve ser vivido 

Não devemos ter medo do calvário. A cruz não é um fim em si mesma (nós não somos masoquistas!). Ela é o meio necessário para a ressurreição e a Vida Eterna. Mais uma realidade para a nossa lista dos paradoxos intermináveis: “Pois quem quiser salvar sua vida a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará” (Mt 16, 25).

A cruz é a condição dada por Deus para aqueles que quiserem segui-Lo. Isto não deve ser motivo de medo ou desespero para nós. Muito pelo contrário, o Senhor é bom e concede um sentido para o nosso sofrimento. Precisamos entender uma coisa importante: todo mundo sofre nesta vida (tanto os cristãos como os pagãos). A grande diferença é que nós, através da Graça conquistada na cruz, temos o poder de transformar o nosso sofrimento em fonte de salvação!

Basta nós olharmos para a vida dos santos: nenhum deles jamais reclamou do sofrimento, porque era justamente o “calvário pessoal” de cada um que lhes fornecia o combustível necessário para a busca de Deus. O Senhor nos promete uma felicidade ilimitada e incomparável, mas não neste mundo. O “calvário pessoal” é o pequeno preço que precisamos pagar para adquirirmos um tesouro incalculável que não merecemos por conta própria.

Qual é o meu calvário pessoal?

Cabe, agora, uma reflexão essencial: qual é o calvário existente na minha vida hoje? Será que é uma doença? A perda de um ente querido? A situação de desemprego? E o mais importante: este meu “calvário pessoal” tem sido enxergado de que maneira: como um ponto de desespero e de tragédia, ou como um caminho que me aproxima do sofrimento de Cristo?

Nosso Senhor morreu por nós e pela nossa salvação. Porém Ele deseja a nossa participação neste plano redentor. É como se Ele permitisse que cada um experimentasse uma pequena fagulha da sua Cruz. Sobre este tema, São Paulo veio a dizer: “Alegro-me nos sofrimentos que tenho suportado por vós e completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo” (Cl 1, 24).

Mas não se preocupe. O senhor não exige que carreguemos a nossa cruz sozinhos (na verdade, isso seria impossível). Por isso contamos com o auxílio do Espírito Santo, com a força dos sacramentos, com a intercessão dos santos e o amparo de Nossa Senhora. Além disso, enquanto Igreja, estamos todos juntos nesta caminhada rumo à Vida Eterna.

Que a cruz do Senhor seja sempre o nosso orgulho e a nossa vitória!

Rafael Aguilar Libório
Discípulo da Comunidade Católica Pantokrator

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