Nada é perda de tempo para Deus

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Temos uma mania de acreditar que a partir do momento em que confiamos nossa vida, nossos planos e nosso tempo para Deus, a vontade d’Ele vai ser condizente com pelo menos o mínimo da nossa vontade, que o tempo d’Ele deve ser ao menos análogo ao nosso. E esse nosso orgulho, essa síndrome de achar que se entregar ao Pai é um favor a Ele, que deve haver uma medida compensatória pela nossa grande devoção, denota – além de uma baita vaidade – nossa dificuldade em nos abandonarmos e confiarmos completamente que o Pai nos ama, que não nos abandona, que não há perda, e que o caminho d’Ele não é o da infelicidade. Confiar que quando a vontade d’Ele não é a mesma que a nossa, não estamos perdendo tempo – mesmo que isso contrarie nossa lógica – é fundamental.

Nossos Planos X Vontade de Deus

Mas tocar isso no efetivo, na realidade das nossas incertezas é muito difícil. Muitas vezes parece que aceitar a vontade de Deus é muito mais simples na teoria, do que querer vivê-la na prática, eu, por exemplo, estou vivendo isso constantemente. Prestei uma tijolada de vestibulares no final ano passado, e eu me esforcei demais, estudei como uma louca, queria muito isso – e deixei claro para Jesus o quanto -, e tinha um medo de não passar, de não dar certo e da incerteza de como seria meu ano se não desse. Porque além do medo de ter meu orgulho ferido e lidar com as expectativas dos outros e com as minhas, eu já tinha traçado todo o plano de como seriam as coisas, tudo organizado pela minha lógica, como tudo se encaixaria ao longo do tempo, mas do meu tempo!

E a matemática estava ao meu favor, as minhas chances de passar na faculdade do meu sonho eram favoráveis, eu tinha me dedicado e eu entregava para Jesus – mas não me abandonava por completo, porque tinha a chance da Vontade d’Ele não ser a mesma que a minha, e essa possibilidade me apavorava. Só que chegou um momento que eu percebi que não haveria de fato felicidade e certeza naquilo que viria, não importava a matemática estar comigo ou todo o meu esforço humano, se eu não estivesse totalmente abandonada em fazer aquilo que o Pai designava para mim. Então vieram os resultados, e nada! Não passei em nenhuma daquelas que eu suei para passar.

Perda de tempo?

Assim vieram as frustrações, muito choro, muita incompreensão e muita braveza. Estava brava demais com Jesus, porque poxa vida, tinha estudado e me confiado a Ele, queria fazer a Sua Vontade, estava sendo fiel a Ele, por que Ele não contemplava nem um pouquinho a minha? Eu não entendia o porquê de tudo aquilo, se Deus me amava porque me submetia àquela injustiça, e todos esses questionamentos vinham acompanhados em muitas doses de autopiedade, orgulho e ira. Além de tudo vinha uma sensação de solidão, parece que Deus tinha jogado a bomba no meu colo e ido embora, foi uma experiência pouquíssimo sentimental ou sensitiva, só restava eu e a minha fé.

Mas mesmo que nada daquilo delineasse alguma explicação lógica para mim, eu precisava apenas confiar que se era o que Jesus me pedia, fazia sentido, em algum momento. Para mim era uma tamanha perda de tempo e eu me sentia desnorteada, confusa no meio de tanta incerteza de como vai ser, presa no meio de tantas condicionais “se”, mas eu precisava abraçar tudo aquilo, viver com pequenez sabendo que a bondade de Deus se manifesta mesmo – e principalmente – naquilo que mais dói na gente, em nossa humanidade: a nossa limitação e impotência.

Amadurecer na fé

E o tanto que toda essa realidade aprofundou a minha intimidade com Jesus, o tanto que me encarnou e amadureceu a minha fé, muitas vezes não poderia ser vivido se eu tivesse passado nas trocentas universidades que eu queria. E eu continuo a sofrer com isso, ainda dói, eu não entendi o porquê disso tudo e às vezes eu nunca vá entender, mas essa (foi) perda de tempo dos meus planos diante da minha lógica, não se compara com o tempo que eu ganhei para a minha santificação, com a possibilidade de ter mais tempo para o meu céu, que vale mais que qualquer diploma aqui na efemeridade.

O que você pode estar vivendo pode passar longe da realidade dessa ex – porém futura – vestibulanda que vos escreve, a proporção do que você vive pode ser muito maior ou muito menor, mas seja ela qual for, não ceda ao nosso imediatismo. Nós não precisamos, às vezes nem devemos, tentar compreender o tempo de Deus, só precisamos confiar que Ele é bom, mesmo quando a matemática e a estatística contrariem isso, agarre-se na sua fé.

Ana Clara Gonçalves
Engajada na Comunidade Católica Pantokrator

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