Por que é tão difícil se reconhecer como filho de Deus?

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Antes de pensar no por que é difícil reconhecer-se como filho de Deus, preciso comentar que minha primeira resposta seria: “Sim, às vezes, é difícil reconhecer-me como filha de Deus.”

Muitas vezes é difícil ser filha devido à minha própria limitação, orgulho e mania de achar-me madura e independente. Chega a ser em algumas situações um ato de rebeldia juvenil.

Pela parte de Deus, Ele sempre É e eternamente Será Pai! Deus tem muito bem resolvido essa condição paternal em Seu ser, essência e coração!

Quanto a nós, ser filho de alguém pode implicar legalidade, aceitação, reconhecimento, intimidade e assumir esse laço tão único que toda pessoa pode construir com outra pessoa.

Eu posso ser filha legítima do meu pai, ou não, o que me confere deveres e direitos.

Preciso aceitar em meu coração e razão ser filha do meu pai para conseguir acolher sua paternidade e autoridade na minha vida.

Posso reconhecer-me filha do meu pai pelo fato de que desde meu nascimento fui inserida num relacionamento íntimo e construtivo de amor com ele o que me faz enxergar-me como filha.

Posso assumir-me como filha dependente e necessitada de um pai pelo simples fato dele ter adquirido mais experiência de vida tendo muito o que me ensinar. Posso querer ser filha do meu pai porque sei que preciso de afeto e suporte afetivo e/ou material.

Ser filha depende do meu querer, das minhas experiências, da qualidade e intimidade do meu relacionar-se com meu pai. Enfim, ser filho de alguém é algo complexo que requer humildade, amadurecimento e decisão por uma constante construção de relacionamento filial.

Ninguém é capaz de ser filho, sentir-se filho, assumir-se filho de alguém que não conhece.

Qual o significado de ser filho de alguém?

A palavra filho é dada à pessoa que foi gerada e/ou criada por um pai e/ou uma mãe. Logo, todos nós somos filhos ou filhas de alguém. É praticamente um atestado de vida: se estou vivo, é porque tenho um pai e/ou uma mãe, independentemente se eles estão vivos ou são falecidos.

Ser filho de alguém não implica necessariamente uma relação de consangüinidade entre filhos e pais.

Ser filho é reconhecer alguém como tal porque esse alguém esteve presente na criação cumprindo a missão de gerar/criar, de proteger, educar e ser presente na vida de um filho. O ser filho implica no despojamento do querer ser auto-suficiente, independente. Ser filho nos insere na ação do desvincular-se das tentações da soberba e vaidade. Aquela velha tentação de achar que já somos adultos e, conseqüentemente, não necessitamos mais da presença, do cuidado e dos ensinamentos de um pai.

É preciso reconhecer nossa fragilidade e necessidade de sermos cuidados, guiados e protegidos,  independente da nossa idade cronológica.

Outro dia tive o privilégio de presenciar uma bela cena: um homem perto dos seus 60 anos pediu a benção ao pai de 85 anos ao encontrar-se com ele. Era visível o relacionamento sólido de dependência e respeito do homem de 60 anos com o pai. Em contra partida, era visível também a postura fraterna e paternal do homem de 85 anos que carinhosamente respondeu ao filho: “Que Deus te abençoe, meu primogênito.”

Reconhecer-se filho é querer construir um relacionamento de amor, respeito e intimidade com o pai. Permitir que ele faça parte da minha vida, tristezas e alegrias.

Ser filho é reconhecer-se dependente de um pai independente da idade cronológica e se o pai ainda está vivo ou não.

E por último e não menos importante, ser filho é desejar amar e deixar-se ser amado.

Mas, eu realmente quero ser filho? Realmente quero ser filho de Deus?

Geralmente, transferimos para a paternidade divina as nossas experiências com nosso pai humano. Projetamos em Deus, que é PERFEITO, uma paternidade humana que é imperfeita.

Às vezes nos esquecemos que Deus é nosso Pai, e sendo Perfeito, Sua paternidade também é PERFEITA.

Desde que me conheço por gente (desde que tenho memória) lembro-me da seguinte frase do meu pai biológico: “Vou te criar para não precisar e depender de ninguém.” E assim, ele me criou:

Aos 8 anos, além dos meus estudos convencionais, comecei a estudar duas línguas: inglês e espanhol. Concluí meus estudos aos 18 anos. Sou fluente nessas duas línguas e adquiri o gosto e hábito de estudar línguas.

Era comum nas minhas férias escolares meu pai me inscrever em cursos extras que, segundo ele, ajudariam-me a conseguir melhores colocações profissionais no futuro.

Aos 14 anos eu aprendi a dirigir. Quem me ensinou? Meu pai.

Aos 15 anos fiz minha primeira viagem internacional para os EUA sem acompanhante, sozinha (através de uma companhia de viagem). Foi meu presente de debute dos meus 15 anos. Pela primeira vez eu tive que controlar meu dia, meu dinheiro, minhas compras, meus passeios, meu transporte, ou seja, me “virar nos 30” sem uma retaguarda familiar.

Aos 19 anos consegui meu primeiro emprego. Minha família foi contra, com exceção do meu pai que apoiou minha decisão e me ajudou a encarar esse novo na minha vida.

Cresci gradativamente para ser “independente”, e gradativamente não “precisar” depender de um pai. Infelizmente, isso também levou-me a ir gradativamente aprendendo a tomar decisões sem consultar ninguém e tão pouco me importar com a opinião dos meus queridos e amados, levando-me a supervalorizar meu potencial, autonomia e independência.

Num determinado ponto da minha vida, aos 26 anos, tive uma crise existencial onde sentia que eu tinha e poderia ter tudo, mas ao mesmo tempo sentia que não tinha nada. Tinha uma carreira profissional numa grande empresa, tinha autonomia financeira, tinha um namorado bonito e bacana, tinha família, amigos, freqüentava lugares bons e viajava com freqüência. Mas, faltava algo. E foi nesse tempo de crise que conheci o carisma El Shaddai Pantokrator na Comunidade Pantokrator, que na época tinha outro nome: Comunidade El Shaddai.

Fiz o encontro vocacional e fui aos poucos conhecendo melhor a Trindade.

Fui me identificando com o carisma de dependência total ao Pai através da fidelidade incondicional. Eu que fui criada para ser totalmente independente, estava encantada por uma vocação de dependência e fidelidade incondicional. É no mínimo contraditório e irônico.

Com mais de 18 anos na comunidade, ainda é para mim um aprendizado diário viver uma dependência filial e amorosa a Deus Pai.

É fácil viver essa dependência? Para mim, nem sempre! Às vezes ainda grita em mim a Márcia independente. Às vezes ainda ecoa a frase do meu pai humano: “Vou te criar para não precisar e depender de ninguém”. Nesses momentos, imediatamente faço uma oração de renúncia e clamo o Espírito Santo para que faça viva no meu coração e alma a certeza da minha filiação e dependência divina!

Desde o tempo do meu vocacionado tenho descoberto a libertação e alegria de ser FILHA amada de Deus, filha preciosa de um Deus que deseja que Seus filhos sejam inteiramente dependentes Dele. Ser filha de um Deus que deseja que seus filhos permaneçam debaixo de Suas asas eternamente recebendo Seus cuidados, Seu amor, Seus ensinamentos e Seus desígnios.

A cada dia, reforço diante de Deus a minha decisão de querer ser filha Dele. Reconheço-me humildemente frágil, dependente, necessitada e mendiga de Deus. Não há maior consolo do que ser filha de Deus e confiar em Sua Vontade e Desígnios. Claro que viver isso tudo é um aprendizado diário repleto de tropeços e pequenas vitórias.

Hoje eu sou mais filha de Deus do que fui ontem e menos do que serei amanhã.

Tem dias que é fácil ser e agir como filha de Deus. Tem dias que não é tão fácil assim.

Mas, reconhecer-me filha de Deus é algo definitivo, independente de como eu esteja, onde eu esteja e com quem eu esteja.

Sou filha preciosa de Deus!

Atualmente, meu relacionamento com Deus Pai é filial e amoroso. Desafiador? Com certeza! Entretanto, definitivamente ESCOLHO diariamente ser e permanecer FILHA de Deus vivendo sob Seu AMOR PODEROSO.

Busco construir diariamente um laço afetivo de amor e intimidade, porque somente amamos quem conhecemos. Colocar-se como filho de alguém requer confiança, respeito, permitir-se ser ensinado, moldado, exortado e amado.

Pelo meu Batismo reconheço-me filha legitima de Deus. Quão lindo e importante é esse sacramento: sacramento do reconhecimento da filiação divina, da certidão de Nascimento para a vida de Deus. Sou batizada, sou filha e herdeira de Deus!

Cristo era o único que por direito poderia chamar Deus Pai de “pai”: “Ábba”. Mas Cristo nos deu esse direito também através do sacramento do Batismo. Sendo uma batizada posso também clamar: “Ábba! Meu querido Pai!”

Através da vida de oração, minha filiação e intimidade com Deus amadurecem e frutificam. Assim como a certeza que sou filha preciosa de Deus. Termino esse texto reformulando minha reposta inicial à pergunta central desse texto: “Sim, às vezes, é difícil reconhecer-me como filha de Deus. Mas, por livre escolha e decisão eu escolho ser filha de Deus em todos os momentos da minha existência. Escolho ser filha de Deus por toda a eternidade.”

Pai, me dê a graça de ser filha! Ser filha pequena, humilde e eternamente dependente de Ti. Seja meu Pai mesmo nos momentos quando eu quiser proclamar minha autonomia e independência. Seja para mim um Pai mesmo nas ocasiões que não clame por Suas bênçãos. Seja meu Pai mesmo quando esqueço de pedir Seus conselhos.Sempre permita que eu seja Tua filha. Acolha-me sempre que eu me afastar, cair e voltar para a Sua casa. Para Sua casa e Seu coração! Casa e coração do meu Pai Santa Teresinha do Menino Jesus, rogai por nós! São João Paulo II, rogai por nós! Amém.”

Marcia Correa
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator 

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