Transformando as chagas em fonte

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Fonte é o local onde brota a água do solo ou das rochas, é a nascente. Isso todos sabem, porém nem todos sabem que há uma fonte escondida dentro de si.

Santa Bernadette Soubirous obedeceu à Virgem Maria que lhe apareceu na gruta de Lourdes, França, quando a última lhe pediu: “Vá ali à fonte beber e lavar-se.” E depois: “Vá, e coma das ervas que ali encontrar.” Embora o pedido parecesse absurdo, pois ali não havia fonte alguma, a pequena Bernadette, ridicularizada por obedecer à Virgem, identificou o local das ervas e as comeu amargas, depois cavou com as próprias mãos no solo em busca da fonte dita pela Dama, resultando em uma terra úmida que passou pelo rosto e colocou à boca, engolindo e vomitando logo após.

Dias depois do acontecido, desacreditada e chacoteada, Bernadette crê tão fortemente no que a Dama lhe havia dito que torna a obedecer-lhe indo novamente à gruta. Nossa Senhora não aparece e ela se despede, porém poucos ali reparam a terra úmida onde a menina comera as ervas e enlameara o rosto. Como havia chamado a atenção, esses vão ao local e admiram-se ao ver brotar ali uma fonte de água cristalina, que logo procuram cercar para não a perder.

Hoje essa gruta é conhecida no mundo todo e a fonte que ali brotou recebe peregrinos de todos os países e já lhe foi atribuído inúmeros milagres. Mas por qual motivo relato esse fato? Pela ilustração que ele nos propõe, vemos aí uma dinâmica de chaga e fonte. O que é a chaga? Uma ferida profunda e aberta e dela sai sangue e dor. Como então de algo assim pode brotar uma fonte de águas cristalinas? Como de um solo seco e ervas amargas podem brotar uma fonte?

Expor a dor profunda.

A chaga aqui simboliza uma dor profunda, uma ferida que carregamos em nós e que, vira e mexe, sangra. Pode ser uma decepção, um defeito do qual não conseguimos nos livrar, uma situação difícil de lidar; algo em nós, em nossa história que nos marcou profundamente e nos acompanha ao longo da vida sem solução, um desafio que a vida nos impõe, etc.

Uma chaga de Bernardette, por exemplo, foi a própria aparição da Virgem, que a trouxe tantos transtornos, sofrimentos, desafios, porém foi também fonte de tantas bênçãos para ela e para o mundo todo; visto que o milagre que daí se sucedeu deve ter sido o maior já presenciado publicamente em nossos tempos. Porém, seja qual for a sua chaga, pois você tem uma, Deus só a permitiu, pois dela Ele pode fazer brotar uma fonte que saciará a você e a outros. Bernadette foi humilhada, sofrida, menosprezada, porém sua persistência, sua fé, obediência e amor a Deus levaram-na à santidade, e um dos seus frutos é a fonte de Lourdes.

Chaga: fonte de vida.

Da chaga de Cristo pregado na cruz brotou sangue e água, da chaga de Bernadette brotou sangue e água, da sua chaga também pode brotar!

Quando Deus cura uma chaga, Ele não a “cicatriza”, Ele faz brotar mais água do que sangue. Transforma o que antes era cenário de morte em fonte de vida.

Ao ressuscitar, Jesus não “se livrou” das chagas, Ele permaneceu com as principais marcas de sua crucifixão para nos provar Seu amor, para nos dizer que é o mesmo que foi crucificado e que agora vive ressuscitado. Nossa chaga nos marca, não para nos lembrar da dor e nos torturar, mas para que não esqueçamos de quem somos e qual transformação passamos, ou passaremos, por pura obra da misericórdia Divina!

Fé, obediência e amor.

Não sei qual é a sua chaga, mas sei que ela pode ser transformada em fonte. Como? Fazendo como Bernadette: pela fé, pela obediência e pelo amor. Saber identificá-la e entrega-la ao Senhor, expô-la a Ele. Quando expomos nossa ferida mais profunda, Ele pode tocá-la e transforma-la; ficamos mais cientes dela, nos conhecemos melhor e saberemos identificar com maior facilidade as ações de Deus em nós.

Se escondemos nossa chaga e vivemos com um curativo por cima, fazendo de conta que não há nada ali ou desistindo da cura, nada vai acontecer além da ferida apodrecer e ganhar uma dimensão cada vez maior até tomar todo nosso corpo; porém se a tratarmos de forma adequada, entregando-a aos cuidados do Senhor, ela será para nós motivo de alegria e fonte de vida.

Deus é quem vai transformar nossa chaga em fonte, não nós. Cabe a nós confiarmos Nele, perseverarmos, nos abandonarmos em Seu amor poderoso e seguirmos sempre o conselho de Nossa Senhora aos empregados nas bodas de Caná: “Fazei o que Ele vos disser.” (Jo2,5)

Rosana Vitachi
Consagrada da Comunidade Católica Pantokrator

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