Se tiramos o amor da cruz, ela deixa de ter sentido

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cruz

“O Pai me ama, porque dou a minha vida para a retornar. Ninguém tira a minha vida, mas eu dou a de mim mesmo.” (Jo 10, 17-18a). A cruz é um grande mistério da vida cristã. Podemos vivenciar a cruz de várias formas e, entre elas, há a própria forma como Cristo viveu.

Deus fez o céu e a terra, criou as coisas visíveis e invisíveis. Deu-nos vida e vida em abundância. Deu-nos a capacidade de trabalho, edificar família, ofertar a sexualidade pelo celibato; deu-nos a oportunidade de continuar a obra de criação a partir da criação de nossos trabalhos. Uma planilha bem feita, um banco de dados construído com primor, um bolo de cenoura saboroso, uma planta regada com carinho, uma criança que educamos, tudo isso faz parte da continuação da Obra de criação e, ofertado a Cristo, unimos nossas obras à Obra Salvífica de Cristo.

Na vida prática (ou real), por vezes perdemos a paciência criando uma planilha, deparamos com limitações nossa e de nossos colegas ao criar um banco de dados. Às vezes esquecemos de colocar o fermento ou esquecemos a assadeira tempo demais no forno, não plantamos de maneira certa nossa flor e acordamos com a cama molhada de nosso filho em meio ao frio intenso da madrugada.

A Cruz pode ser encarada de algumas formas: dramática, prática, ‘apaixonite’ ou ofertada (apaixonada).

Dramática: Podemos ver Jesus na cruz se ofertando para a nossa salvação. A Sua oferta foi real e intensa. Na Cruz ele transformou uma situação ruim em bela e fonte de salvação. Por vezes temos nossas ‘cruzes’, como ao ver o nascimento de nosso filho como algo belo, divino, mas que não me deixa dormir, que trouxe aumento nos gastos de casa, onde não consigo ter mais tempo de organizar a casa, há tem a quarentena do casal, precisa de fraldas e mais fraldas, há gritos, choros, cólicas, enfim… a cruz virou um peso.

E lá está eu a tombar com a cruz, reclamando, lamuriando, por vezes culpando a Deus, esquecendo que há um Simeão (irmãos ou situações de apoio), há a Virgem Maria que nos ajudam na caminha. Esquecemos que o próprio Jesus foi ajudado em sua caminhada na Via Sacra. Vivendo a cruz no ‘drama’ vivo na raclamaçãoe não no amor e louvor pelo que Deus deu a mim.

Não olho a graça de uma nova, do cheirinho de bebê em casa, da alegria de ver o sorriso banguela, de cruzar os olhares na amamentação… de quanta graça aconteceu e não reparamos no amor que está em nossa casa, desse modo, não vemos o amor que há para viver a Cruz. Cristo subiu por amor na Cruz. Ele deu a vida, ninguém a tomou.

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Prática: Perdemos nosso pai (ou mãe). É preciso correr atrás do caixão, enterro, papelada, conta do banco, fechar rede social, acolher parentes, inventário… tantas coisas a ser feitas que não dá para chorar, afinal, a vida continua. Preciso voltar ao trabalho, dar comida aos filhos, faculdade, pós, MBA, hora extra, enfim, é vida que segue. E a dor é calcificada.

Jesus perde São José. Ele sabe o que é perder o pai. A Sua referência masculina vai-se embora. Na Cruz, Ele vê a dor da mãe que perde o filho e entrega João a Ela e Ela a João. Cristo ama até o fim e entrega amor aos seus algozes. Reza por eles, implora por eles, mesmo esses trazendo imensa dor a Ele, Cristo vive o luto com sua Mãe e se entrega com e por amor.

“Apaixonite”: vivemos a Cruz em nossas vidas – desde perder a hora de manhã até mesmo a morte de um parente querido – de forma eufórica: rezamos, choramos, clamamos, até mesmo dizemos que temos e nos unimos a Cristo. Mas isso dura no máximo alguns dias. Logo vemos nossas forças esvaírem e, como em uma novela mexicana, os sentimentos são aflorados, mas as decisões fracas.

Até subimos na Cruz, contudo, quando o frio bate, o medo nos assola, esvaíramos pouco a pouco do sentido, chegando até mesmo ao ponto de culpar nosso chamado, vocação, o seguimento a Cristo de nos colocar nessa situação de sofrimento.

Ofertada (apaixonada-amor):  vivemos todas as situações como oferta a Cristo. Entendemos e vivenciamos nossos fracassos, perdas, misérias e limites como local de oferta à Cruz de Cristo. Minha miséria continua miserável, porém, ao invés de tê-la como “muleta”, peço a misericórdia de Deus para me ajudar.

Quando venço, acerto e sou fiel, entendo que houve um esforço pessoal, acima de tudo, houve a graça de Deus. Quando caio novamente no pecado, na miséria, esbarro nas minhas limitações, peço socorro novamente a Deus e me uno aos sofrimentos de Cristo. Essa dor me une a dor de Cristo e vivo como oferta-amor.

Quando, por exemplo, perco alguém querido, mantenho meu luto, mas me uno à Divina Misericórdia. Uno-me a Cristo crucificado que morre, mas traz a certeza da vida eterna com o Pai. Quando tenho medo diante da pandemia em que vivemos, uno-me à Cruz de Cristo e me oferto, pedindo à Deus a proteção e que a Vontade de Deus aconteça em minha vida.

Nesse momento, as situações do dia-a-dia podem me fazer balançar, entretanto, elas não tiram a confiança em Deus. Continuo sentindo a dor da perda, a preocupação do desemprego, a dificuldade da doença, todavia, oferto a Cristo. Oferto para consolar o coração de Deus e, esquecendo de mim, deixo que Deus console meu coração.

Deus não é distante de nós! Deus não está alheio ao nosso sofrimento. Ele nos acompanha, entretanto, preciso ter a vida em minhas mãos para ofertá-la. Quando tenho o domínio (não controle da minha vida) de mim mesmo, eu posso, com Cristo, dar a minha vida e não deixar que outros a tirem.  Quando Jesus é levado ao Sinédrio, na verdade, Ele se deixa ser levado. Ele passiva – fisicamente (ativamente em sua vontade) – assume a condição que receberia e a oferta em nossa salvação.

Quando temos posse de nossa vida na Cruz do desemprego eu me entrego na misericórdia de Deus; na Cruz da perda do ônibus, assumo minha miséria de ser atrasado e deixo que Deus me forme para não atrasar mais e deixo de culpar outros ou situações por isso; na Cruz do término de namoro, vivo o luto do fim do relacionamento e reflito no que preciso crescer como pessoa; na Cruz da perda de alguém de forma inesperada recorro à misericórdia de Deus para conforto da alma, subo na Cruz de Cristo e, vivendo o luto necessário, levantando para testemunhar a alegria de ter um conhecido com Deus e ser sinal de que eu preciso me converter para ver Deus.

Enfim, amar a Cruz, viver a Cruz, crucificar-nos a cada dia, em cada processo que vivemos, é passo fundamental para ter a vida em minhas mãos e como Cristo dizer: “Ninguém tira a minha vida, mas eu dou a de mim mesmo”.

Leonardo Araujo Pataro
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator

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