Fazer da terra o Céu

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céu

Somos cidadãos dos Céus (Fl 3,20), mas um questionamento: qual é o real significado de céu para nós? Que céu eu semeio? E o que significa céu para um mundo tão Distante de Deus? São questionamentos que se olharmos superficialmente são tão comuns. Mas se mergulharmos a fundo, qual o verdadeiro céu?

Lendo a Regra de Vida da Comunidade Pantokrator em espírito de oração, fui profundamente interpelado por um trecho: “Semeamos o Céu no mundo a partir do Céu que existe em nós”.1

Comecei a me questionar: que Céu tenho semeado? O meu céu com minhas concepções, o Céu verdadeiro ou nenhum dos dois e acabo, assim, revelando fragmentos do “inferno” que existe em mim?

Os desafios do tempo presente

Estamos em tempos difíceis (onde) em que o anúncio da Palavra de Deus não tem encontrado terreno fértil, não por culpa da Palavra que é imutável para sempre e continua viva e eficaz (cf Hb 4,12), mas devido ao livre arbítrio de cada um em recebê-la. Estamos em tempos de corações duros, cheios de espinhos, preocupações com as coisas do mundo (cf Parábola do Semeador), superficiais e até artificiais. A quantidade de informações tem intoxicado as pessoas, fechando-as à Verdade. Por isso me parece que já não basta mais o Anúncio por si mesmo e é preciso ir além, é preciso revelar a Glória do Céu, mas a partir do Céu que existe em nós, encarnando a Palavra de Deus, pois Ela é mistério, não simples lei humana, é transcendente, é o próprio Cristo, o Verbo encarnado.

Testemunho dos Santos

Por que a vida dos Santos a tantos encantam? Será que é somente pelo testemunho? Com certeza também, mas vai além. Na vida deles, vemos frestas do Céu, da Glória de Deus, por isso a tantos convertiam, iam além, tocavam o transcendente e levavam as pessoas a essa experiência. E os santos de hoje também fazem o mesmo, pois as pessoas, por mais ofuscadas pelas neblinas de Satanás que elas estejam, (elas) têm sede do eterno, do verdadeiro, do essencial.

Uma experiência de uma Santa muito simples e até pouco conhecida vai nos iluminar o caminho, é Santa Elisabete da Trindade: “Encontrei o meu Céu na terra, porque o Céu é Deus e Deus está na minha alma. No dia em que compreendi isso, tudo para mim se iluminou”. Essa é uma profecia para os tempos modernos, (onde) em que as pessoas estão fechadas à Palavra, (onde) em que precisamos revelar o Céu, não de maneira conceitual, (para) mas revelando a fagulha da Glória de Deus que existe em nós. Se assim testemunharmos, com certeza, muitos se encantarão com o Céu verdadeiro, com a Glória de Deus, até porque, o Demônio, que é o artífice da vanglória, não descansa de propagar esse mal que afasta as pessoas de Deus, levando-as a serem “deuses” de sua própria vida, buscando fama, exposição, ostentação, luxo e muito mais. Ele está conseguindo seduzir uma multidão e nós que somos portadores da verdadeira Glória não estamos fazendo frente; por que será? Porque temos em nós uma potência que não é usada: fazer da Terra o Céu, revelar a Glória do Céu. No dia em que entendermos isso, tudo vai se transformar através de nosso testemunho, as pessoas vão se maravilhar com o Céu que semearemos, ficarão seduzidas com o brilho dessa Glória – “Assim, brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus”. (Mt 5,16)

Uma nova Profecia

Essa experiência da Santa Elisabete da Trindade é, com certeza, uma profecia para o tempo presente, uma profecia que precisa ecoar no “resto de Israel” para fazer brilhar o esplendor da Glória do Céu no mundo, para uma nova evangelização, uma Evangelização para o Céu. Talvez queiramos números em nossos eventos, mas será esse o caminho? Penso que precisamos de fidelidade, não importa se seja para um, mas um que realmente se salve.

A Renúncia

Antes de subir ao Monte Tabor para revelar sua Glória e Divindade, Jesus prega sobre a renúncia, isso está nos três Evangelhos que relatam a subida ao Monte Tabor: Mateus, Marcos e Lucas. Para nós não é diferente, para fazermos da terra o céu, é preciso renunciar todo pecado, todo apego à nossa autoimagem, sair do nosso comodismo e, de maneira muito simples, revelar esse céu, que pode estar nas coisas mais simples, nos gestos mais comuns, que se são feitos com amor, vão revelando o Céu.

É preciso, para isso acontecer, (de) grandes mudanças em nós, sair do radar dos nossos planos e mergulharmos nos planos de Deus, a exemplo de Abraão que saiu da sua terra e foi para a terra que Deus lhe mostrou (cf Gen 12). Fazer da terra o céu é exatamente isso: sair do nosso conforto para encarar os desafios de Deus, mesmo que tenhamos que oferecer o “sacrifício do nosso Isaac” (cf Gen,22).

Nosso objetivo último é o Céu

“Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus preparou para aqueles que o amam” (I Cor 2,9).

O Céu não pode ser objeto de uma espera parada, de algo ainda longínquo, nem objeto de fuga das realidades, mas o alvo certeiro que queremos atingir, que pela fé já tocamos em mistério, contemplando ainda que por pequeninas frestas o brilho da sua Glória. É nossa Pátria definitiva (,) e nossa verdadeira morada, devemos falar do céu e viver os seus mistérios andando pelos caminhos, no trabalhar, no servir a Deus, no deitar-se e no levantar-se, no respirar e no alimentar-se, e em todo movimento do nosso ser.

Refúgio

Fazer da terra o céu não é um romance, mas uma batalha. É uma batalha de morte contra nossa carne, que se opõe às coisas do céu, e batalha contra Satanás, que com suas insídias e seduções, quer nos afastar deste mistério. Mas, contra tudo isso, temos um refúgio seguro, o manto de glória da Virgem Maria, sob ele estamos protegidos, e, com auxílio da sua intercessão, podemos vencer e vencemos a carne e o inimigo.

Fonte:

1 – Regra de vida da Comunidade Pantokrator

Livros e retiros espirituais

Elias Antonio Breda Gobbi
Consagrado da Comunidade Católica Pantokrator 

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